quarta-feira, julho 11, 2007

O Exmo. Sr. Dr. José de Povinho

Numa tertúlia do canal televisivo da cidade do Porto, um historiador (cujo nome não memorizei) resolveu defender que não é o povo que deve ascender à cultura, mas a cultura que deve descer ao povo. Não vi o programa completo, por isso este não é nenhum comentário ao que por ali se discutiu. É apenas uma achega a esse cliché de mui largueironas costas.

Num artigo publicado por Desidério Murcho no site criticanarede.com, o professor e pensador defende que, na escola, os valores éticos e políticos não devem ser impostos aos alunos. Pois o conhecimento tem um valor intrínseco (vale por si, e não como mero instrumento). Por exemplo, deve-se transmitir aos jovens tudo o que se sabe sobre a democracia e sobre a ditadura, todo o conhecimento acumulado sobre estes assuntos deve ser transmitido com honestidade e competência intelectual (definições, defeitos e virtudes de cada sistema, a sua verdade histórica, etc.). E perante o rigor dessa informação, é o adolescente quem tem de decidir o seu caminho ideológico (perante a verdade, talvez o aluno honesto não possa escolher outra coisa a não ser a democracia?).

Mas note-se: ninguém nasce democrata, cidadão interveniente, homem ético, ecologista, etc. É preciso colocar todas as cartas na mesa, e dar a liberdade de escolha a quem se encontra informado com amplitude e exactidão.

Por que razão se passaria algo diverso ao nível da produção artística? Se ninguém nasce democrata, porque deveriam os bebés nascer gritando o tema de uma fuga de Bach? Suponho que esta é uma mera alergia de direita. No entanto, também o que aqui defendo não tem nada a ver com uma educação do povo (só a formulação já cheira a pus de esquerda).

Sigo, pois, o exemplo de Desidério Murcho e defendo que, também ao nível da dinâmica artística, o essencial é transmitir aos receptores culturais os principais conhecimentos e ideias que existem a respeito de cada sector criativo (e os consensos maiores ou menores que daí resultam). E só assim pode o espectador escolher, em consciência, aquilo com que quer conviver. Nem os sentimentais que não tocam num poema nem com um ensaio, nem os publicitários que martelam filmes e outras bestas céleres na cabeça dos adolescentes a despeito de qualquer dúvida ou discussão: nenhum faz serviço público.

Partilhar, conversar, ler: percurso frágil, é certo. Mas certamente melhor do que o convívio com bafientas ideias feitas.

1 comentário:

Desidério Murcho disse...

Obrigado pela referência ao meu texto -- ainda para mais, mostrando que a mensagem que eu queria passar foi entendida, o que nestas coisas da educação é surpreendentemente raro, sobretudo lá para os lados do Ministério Pimba da Educação.