terça-feira, julho 17, 2007

O ACTUAL 13

"Natureza morta" - Jia Zhang-Ke


Os realizadores da chamada 5º Geração do cinema chinês tomaram o mundo cinéfilo de assalto com a sua arte ao mesmo tempo sumptuosa e eticamente rigorosa. No entanto, após alguns filmes magníficos, a dimensão sumptuosa acabou por ocupar todo o espaço da criatividade, e as obras daí resultantes substituíram a eloquência do formalismo (que é sempre uma estratégia semântica) pelo mero decorativismo.

Jia Zhang-Ke pertence à geração seguinte. Numa primeira impressão, o look dos seus filmes é muito mais sujo, descuidado, isento de violência pictórica. No entanto, ele é acima de tudo um construtor de imagens (e se não perder a fibra moral que o conduz, essas imagens manterão a sua relevância ao mesmo tempo estética e discursiva). Não é por acaso que, em "Natureza morta", nos são oferecidas vistas verdadeiramente luxuriantes de uma paisagem natural chinesa que ainda não conhecíamos (nem nos postais ilustrados, nem nos clichês da mitologia oriental).

Sobre este cenário pungente, Zhang-Ke esboça uma pequena parábola: um homem procura uma mulher, uma mulher procura um homem. Não são, no entanto, buscas convergentes, pois eles não pertencem ao mesmo casal. Afinal, os membros de um PAR (abstracto) procuram-se sempre, sem que se procurem concretamente um ao outro (decifração singela para uma parábola singela). É a realidade onde soçobra o mito do amor.

Curiosamente, tanto o homem buscador como a mulher buscadora são dignos da nossa compaixão: ele é humilde e terno, ela é nobre e sofredora. Mas a nossa empatia é subtilmente quebrada quando a mulher afinal diz que se apaixonou por outro indivíduo e que vem apenas pedir o divórcio ao marido, e quando o homem confessa que tinha comprado a esposa no passado. Ou seja, eles vêm agitar o presente com o tempo perdido (a narrativa decorre num local destinado a ser completamente submerso por causa de uma barragem), mas esse passado não é tão puro como poderíamos supor. E como o realizador está constantemente a transitar do discurso individual-sentimental para a visão política-histórica, podemos quase dizer que ele tanto pretende filmar a transformação irreversível da China num país capitalista, como demarca a sua distância crítica face ao passado recente comunista (que ninguém considera passado porque a sua submersão é lenta).

Este parco discurso é amplificado pelas imagens. Os personagens agem no meio de edifícios a serem destruídos, numa paisagem de devastação. Mais do que metáforas, estas imagens funcionam como evidências sensuais (da ruína das relações afectivas, da ruína de uma arquitectura política). Ao mesmo tempo, o autor tem uma certa tendência para obrigar a câmara a seguir o percurso de barcos sobre o rio. Faz, assim, uma espécie de travellings irónicos, na medida em que a acção narrativa que eles captam (aquilo que se passa com as personagens) não parece ser o seu verdadeiro objecto. Esta ironia plasma a ideia de que, apesar do sentido heraclitiano da ideologia política reinante, a vida permanece estranhamente quieta (still life). Zhang-Ke não confunde o privado com o público (são margens diferentes). Aliás, esta permanência lacustre da psicologia dos indivíduos em dissonância com o progresso económico-fluvial faz lembrar um pouco o cinema de Antonioni (que não via os sentimentos a evoluírem de acordo com as metamorfoses da tecnologia). Assim, se a economia oferece uma ponte sofisticada para os homens caminharem sobre o rio, o facto é que eles continuam a fazer equilibrismo sobre uma corda-bamba (como literalmente o demonstra a sequência final).

O dinheiro (onde estão gravadas as belas paisagens do país) não tem, afinal, magia nenhuma. A China mantém-se um lugar de insuportável exploração do homem pelo homem. Ainda por cima, a cultura milenar foi invadida pelas razões do Ocidente (os discos voadores que eventualmente trouxeram os telemóveis a um país de imemoriais tradições), e o futuro já só encontra expressão na onírica e evasiva transformação de um prédio em nave espacial.

Por entre pequenos prazeres que tornam tudo suportável (o cigarro, o álcool, o chá ou os doces), Zhang-Ke oferece-nos o registo contundente da China mítica a ser completamente demolida.

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