quarta-feira, julho 11, 2007

No escrínio 26

Poema "Garnisés nos pinhais" de Wallace Stevens, traduzido por Jorge Fazenda Lourenço:


Chefão Ifucão de Azcão em seu cafetão
Castanhão com penas de hena, alto!

Maldito galo universal, como se o sol
Fosse um negro com a tua cauda flamejante.


Gordo! Gordo! Gordo! Eu sou o individual.

O teu mundo és tu. Eu sou o meu mundo.


Tu, poeta de dez pés entre polegadas. Gordo!
Fora! Uma polegada eriça-se nestes pinheiros,


Eriça-se a aguça as suas pontas Apalaches,

E não teme o corpudo Azcão e a sua arruaça.




"Bantam" era o nome dado aos militares de baixa estatura, mas extremamente brigões, que formavam batalhões especiais durante a Primeira Guerra Mundial.

O poeta reduz a gravidade da guerra real (para isso acodem palavras como garnisé, gordo, arruaça, etc.) a uma questão de liberdade criativa. Stevens insurge-se, evidentemente, contra a ortodoxia poética.

É claro que há aqui (nos dois versos iniciais) um sarcasmo disparado contra as futilidades sonoras que um poema pode ostentar (e que podem simular uma valia que o texto não tem), ou contra os poetas de tal modo irradiantes que, à sua beira, o sol parece negro. Mas prefiro pensar que o grito é trans-histórico (até porque eu gosto de poetas irradiantes), e que serve às diversas carapuças que os poderosos da palavra vão tricotando ao longo do tempo (afinal, parte da estética do poeta acabou por conformar uma ortodoxia posterior...). Ainda que seja um desafio destinado a permanecer mais moderno do que eterno.

Muitas vezes, os poetas só ganham dez pés porque o seu cortejo de protectoras vestais os entronizam em solidão. É certo. Mas Stevens sabe que a ilusão de grandeza pode resultar directamente de uma escrita feita com os pés (a polegada, medida muito mais pequena que o pé, toma como modelo a segunda falange dos dedos da mão).

O poeta moderno é, então, o que sabe distinguir entre ser grande e ser apenas... gordo. Índio malvado, Stevens insulta os Senhores da Poesia como uma criança insultaria um adulto inclemente e sem imaginação (ou o garnisé desdenharia do galo).

No entanto (e aqui reside a beleza do poema), a pequenez logo readquire uma gravidade insuspeita (afinal, grave é a grandeza que riu e chorou). Se esta é a linguagem da Guerra, é porque, de algum modo, o profundo desentendimento entre os Homens está radicado no seu (profundo?) desentendimento verbal. E sendo a poesia uma arma tão poderosa como a que matou o arquiduque, também nela há responsabilidade e salvação.

Neste post, também eu tentei defender o individual. O teu mundo és tu. Eu sou o meu mundo.

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