domingo, julho 29, 2007

Crónica do passado

Não se falava de outra prisão a não ser da que tinha cabido a El Solitário. Mas eu tinha tomado a máquina-do-tempo em direcção à Póvoa de Varzim (consegui viajar no expresso, o que me permitiu saltar os séculos que não me interessavam), para assistir a um concerto de cantos europeus do passado. Uma hipotética Grécia Antiga, a religiosidade medieval, cantares sefarditas, noruegueses, escoceses, instrumentos de fantasia (o passado é ficção científica sem efeitos especiais) chamados aulos, santur, e muitas outras bizarrias.

O espaço escolhido para o recital fora a Capela de São Pedro de Rates (nenhum passado português faz sentido sem uma capela). Pelo que tive de apanhar um autocarro gentilmente cedido pela autarquia para me dirigir desde o Turismo da Póvoa até à dita paróquia no meio de nenhures. No veículo, a companhia reduzia-se a um conjunto de velhinhas com cheiro a flores de cemitério (quando em modo de cinismo, o perfume é sempre um instrumento de vanguarda). Chegados a São Pedro, fomos recebidos pelo hospitaleiro casal rústico formado pelo silêncio e pelo odor do estrume. O tom sussurrante do momento, uma bolha protegida do presente, fez com que algumas recordações sem drama me visitassem (madalena, para mim, faz-me lembrar um orfeão onde eu tive de ser resistente Snaporaz no meio da cacofonia).

Ao longe, deparei com duas personagens que em tempos conheci (elas não me reconheceram porque eu sou menos memorizável). Um anão que declamava António Nobre sobre um fundo de ondas entoado pelo público por si instruído. E uma daquelas senhoras adoráveis que já no útero materno preferiam oxigenar o cabelo em vez da mente, com vozeirões de mezzosoprano enrouquecido, mas que foram casadas com indivíduos relevantes da vida intelectual.

Apareceram as pessoas do costume: discretas professoras de meia idade (professoras de piano, certamente, porque as discretas professoras de meia idade são sempre professoras de piano), betinhos que cantam em coros onde se cantam te deums e magnificats, jovens candidatos a prodígios de um instrumento, avós de jovens candidatos a prodígios de um instrumento, a senhora com aspecto de Clara Ferreira Alves, e alguma gente que foi parar ali como se o Governo a tivesse desviado para uma propaganda qualquer. Não vi aquele senhor que corria os concertos da Invicta com uma mala cheia de dicionários (talvez já tenha morrido: denotativamente). Também não estava presente o crítico Augusto Seabra. Cheguei a pensar que, se isso fosse relevante, valeria a pena ser a Agustina deste universo (Agustina que, claro está, é o Proust do Minho).

Fixei atentamente um homem cujo rosto me parecia familiar e estranho. Cheguei a supor que era um irmão do Manuel Luís Goucha (a parecença também pode ser pimba). Mas não. Ao fim de algum esforço, concluí que era um amigo casto (sic) de uma amiga casta (sic) que tive no passado, sem a barba que durante anos o tornou personagem do século XIX.

O concerto, máquina do tempo emocional, foi maravilhoso. Desde logo porque só participei como espectador. Passado, sim: mas sem barba.

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