terça-feira, julho 24, 2007

Critérios

Recentemente, a RTPN organizou um debate sobre o casamento homossexual. O que mais me espantou foi o raciocínio vicioso e pouco imaginativo usado pelos detractores dessa (futura) conquista legal.

Na minha pouco modesta opinião, o que cria desigualdade entre dois seres humanos (originando desse modo a necessidade de uma relação) é o desejo: desejo erótico, paixão juvenil ou obsessiva, amor sereno, amizade sensualizada, etc. Na nossa espécie, nenhuma relação resulta de uma pragmática do corpo, mas sim da fantasia que o corpo provoca (incluindo a fantasia da constituição de uma família). A própria noção de casamento deriva de imensos pressupostos extra-corporais: desde o sacramento religioso à vontade de criar um conjunto de filhos, passando pela institucionalização do afecto e pela tutela de direitos legais conquistados na relação.

Curiosamente, o critério usado contra o casamento homossexual é sempre o mesmo: o casamento é uma instituição imemorial que consagra a união de dois indivíduos de sexos diferentes (chega-se sempre a insultar o homossexual dizendo que, se ele tem vida, deve-a a um pai e a uma mãe). Foi com muita piada que o advogado Luís Graça chegou a defender o matrimónio entre dois homossexuais, desde que pertençam a géneros diferentes. Ou seja, por um lado o critério é exclusivamente sexual (que é o critério animal), e não relacional. Mas por outro lado, para que a argumentação triunfe, essa sexualidade pode chegar a ser completamente despida de desejo (casados, o gay e a lésbica não terão muito interesse nas suas mútuas corporalidades).

Das duas uma: ou esta é uma visão religiosa do problema (como se depreende da sua tentação angélica), e por isso não pode ser aplicada ao casamento civil; ou então, o que lhe está subjacente é uma evidente mas não confessada homofobia (ou seja, a dificuldade de acreditar na grandeza afectiva da relação entre duas pessoas que, por acaso, podem ser do mesmo sexo).

Quanto ao problema da promiscuidade dos homossexuais masculinos, pouco propícia para a estabilidade familiar (e eu adoro dar armas aos meus adversários), permitam-me que defenda que isso é um problema de cultura. É que, se é praticamente impossível ser heterossexual e não constituir uma relação estável, o mundo gay, atirado para as margens ocultas da sociedade, acaba por reger-se por outros valores (agravados pela característica demasiado genital da sexualidade viril). No entanto, os problemas culturais são os mais difíceis e os mais fáceis de resolver numa sociedade.

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