segunda-feira, julho 30, 2007

Cadernos Fellinianos 1

1. A crítica também tem modas. Hoje, quando se fala de Federico Fellini, elogiam-se sempre os mesmos dois filmes: "Os inúteis" e "Amarcord" (diz-se que, nesses momentos, o autor estava controlado...). Tanto Fellini como Bergman ou Buñuel são geralmente reduzidos à sua produção dos anos cinquenta, uma altura em que a poética de cada um atingiu a sua maturidade em harmonia com uma estética narrativa de pendor mais clássico. Pois eu advogo (e tentarei ir defendendo a minha causa neste blogue) que o percurso dos três cineastas ao longo das décadas seguintes se pautou pelo mesmo rigor, por ainda maior ambição (o risco originou mesmo alguns, muito poucos, falhanços), e levou cada uma dessas estéticas até ao seu limite. Assim, "Saraband" (para o sueco), "Cet obscur objet du désir" (para o espanhol), e "La voce della luna" (um dos mais vilipendiados e incompreendidos filmes de Fellini) afiguram-se como as obras-primas que coroam três percursos exemplares.


2. O recurso ao som directo (captado durante a rodagem) acompanhou os principais momentos de ruptura da História do Cinema sonoro (neo-realismo italiano, cinéma-vérité, nouvelle vague). Presumo que hoje a questão se revela algo secundária e que cada um trabalhe o som da maneira mais apropriada para os seus objectivos criativos. No entanto, Fellini teve uma atitude radical perante esta questão. Ao negar qualquer aproveitamento do som do plateau (toda a banda sonora era pós-sincronizada), numa atitude de desafio ao profissionalismo daqueles fazem carreira sisuda na sétima arte, isso permitiu-lhe criar o ambiente de rodagem capaz de provocar as imagens com que ele sonhava. Contam os seus colaboradores que, durante as filmagens, havia ruído no plateau, gente a fumar, demasiada gente aliás, conversava-se, ria-se, chorava-se, Fellini gritava e improvisava, um pequeno caos que moldava o caos mais significativo que a câmara acabaria por registar. No plateau de Fellini, o ambiente era de festa, de celebração, de vitalidade. Que isso hoje seja considerado uma bizarria, só demonstra como nos tornamos tristonhos e hipócritas.

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