segunda-feira, junho 11, 2007

A sagração do escândalo

Alguém decide fazer um reality show em torno da questão da doação de rins. Surge o escândalo, a indignação. Afinal, não era nada disso: tratava-se de uma mera provocação. E até rendeu 12000 novos dadores do órgão em questão. Stop.


1. No programa da SIC Notícias "O eixo do mal", Luís Pedro Nunes (homem informadíssimo, capaz de pensar com originalidade, e a quem devemos esse fundamental serviço público que é o suplemento humorístico do jornal que PÚBLICO se chama) veio defender a iniciativa em nome da sua ostensiva eficácia (e de uma recusa em pensar em termos de uma ética demasiado estrita).

Para além dos argumentos mais evidentes que se podem usar contra essa opinião (os 12000 rins em potência podem diminuir substancialmente quando o hype passar; também se pode obrigar uma criança a fazer tudo o que queremos à custa de lapadas, mas isso não fará dela um adulto mais interessante; também as ditaduras são mais eficazes do que as democracias; a manobra em questão é feita por pessoas que se consideram mais inteligentes do que os seus destinatários; etc., etc.), eu gostaria de chamar a atenção para a questão específica do escândalo.

Quando Stravinsky apresentou a sua "Sagração da Primavera", estava convicto de que a sua música era válida, e até talvez um passo libertador na História da sua Arte. O escândalo que daí resultou foi um acontecimento lateral (talvez necessário, mas lateral). Mas Stravinsky não veio depois dizer: afinal, isto era mentira, uma brincadeira, e para sagrar a Primavera vou mas é escrever uma musiquinha como a Sexta Sinfonia de Beethoven. É claro que há sempre os românticos da escandaleira (uns mais insurrectos, outros apenas arrivistas), mas, em princípio, a validade de um distúrbio público deriva essencialmente da convicção daqueles provocaram esse distúrbio. Todos sabemos que a verdade não vende bem.

Ora, neste caso, o escândalo foi apenas um meio circense para atingir um fim ao qual ele não era, no fundo, necessário. Ou seja, este escândalo não resultou de nenhuma necessidade genuína, mas foi uma técnica de manipulação mediática. A postura que tomemos perante a situação, tem de ser coerente com o que pensamos sobre o estado hiper-mediatizado da presente sociedade (e que ninguém me venha dizer que temos de aceitar tudo o que presente nos dá; hoje olhamos muitas vezes para civilizações anteriores à nossa, e não gostamos nada do que por lá vemos).

Não. Não aceito ser um peão do xadrez mediático. E por isso não aceito aqueles meios para atingir aqueles fins.


2. É sabido que alguns enunciados verbais constituem igualmente acções. Se eu disser a alguém "nomeio-te meu escudeiro", pelo simples acto de dizer, eu estou a alterar a realidade. No entanto, talvez todo o dizer implique, num sentido mais lato, um agir. Toda a palavra poética tem essa função (por exemplo, quando os amantes de Rimbaud se declaram rei e rainha, e efectivamente nisso se tornam). Mesmo o homem sozinho no meio do deserto continua a agir psicologicamente sobre si mesmo, enquanto objecto das suas próprias palavras.

Não será difícil chegar à conclusão de que toda a acção constitui, igualmente, um enunciado verbal. Tudo o que fazemos, diz alguma coisa: sobre nós, e sobre o (estado do) mundo. Aquilo que o acto em si mesmo diz, pode assim constituir uma espécie de instrumento de verificação moral (que não deixe os homens serem cegos pelo fogo-de-artifício da eficácia).

Precisamos, assim, de concordar não só com o acto, mas também com o discurso que dele se desprende.

Penso que não preciso de explicar a aplicação desta ideia ao caso acima exposto.

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