quinta-feira, junho 07, 2007

Partilha 14

(Este é um dos micro-contos que eu escrevi como sendo matéria de um estranho projecto de livro chamado Cadernos de Xochimilco. Conforme o tempo vai passando, a pertinência desse projecto vai diminuindo em mim. Algumas das suas partes darão origem a livros autónomos - por exemplo, uma antologia de micro-heterónimos. Mas presumo que a motivação inicial acabará por desaparecer. Por isso, tentarei publicar, neste blogue, alguns dos textos que já estavam escritos. A peça que se segue é um dos micro-contos sobre uma pseudo-Veneza, que constituíam um dos capítulos do projecto.)


Uma cidade é indiferente quando não olha para cima. Talvez por isso, os fazedores de futuro tenham construído todas essas novas iorques que obrigam os seus habitantes a erguer o fogo do olhar, e fazem suas comédias e tragédias desenrolar-se em palcos roubados aos céus. Veneza não era assim.

Era um mundo ateu apesar das crenças. As suas gentes acreditavam no corpo, no prazer, na boa mesa, na poesia, na dança, na viagem, no comércio. Em pouco mais. E Prometeu, que tudo isso lhes havia dado, estava esquecido, desacreditado, agrilhoado com inexpugnáveis correntes ao campanário da praça principal. Como ninguém olhava para cima, como ninguém condescendia em elevações, o sofrimento do grande rebelde decorria em literal silêncio dos deuses:

Todas as manhãs, o poderoso sino do campanário sofria a metamorfose que o seu badalo lhe percutia. Contavam os antigos aedos que, quando o mundo ainda era mundo (antes, portanto, de ser saudade), não havia diferença entre música e escultura. Pigmalião, por exemplo, havia talhado sua quimera com um oboé d’amor, e Orfeu era tão virtuoso que conseguia moldar as rudes pedras delas tirando apenas os sons excedentários. Assim acontecia também em Veneza: sempre que soavam as matinas, o sino do campanário tornava-se águia, uma águia de metal de tal modo pesada e agressiva que não tinha mais voo que aquele que o eco torna possível. E este algoz de rapina todos os dias regressava ao corpo de Prometeu, e lhe comia, com violência e sofreguidão, o fígado imortal.

Prometeu fora um herói magnífico. Mas agora, desprovido de virilidade biliar, tentava recorrer a estratagemas de uma sobrevivência mais urbana. Cantava.

Enquanto a besta alada lhe devorara as entranhas, Prometeu nada mais conseguia a não ser cantar uma velha melodia que a Aurora lhe ensinara em criança. No fundo, continuava a ser um lutador, e seguia a ancestral regra dos códigos de combate que obrigava a que todos os que reagissem a um ataque, o fizessem com as mesmas armas do agressor. Por isso, Prometeu usava o seu bico. E mordia da única maneira que o seu perene regresso à infância (a dor) lhe permitia. Cantava.

Cantava uma canção fácil, melodia simples, sem efeitos, onde as palavras se fundiam em lume brando. Não mais grandes convicções, palavras de ordem, o incêndio do futuro. Apenas algumas achas de uma evidência capaz de silenciar.

A águia sentia-se comovida, o que, neste jogo de metamorfoses, quer apenas dizer que a sua matéria regressava ao sino, e nesse regresso levava um desejo de modesto sossego. Anoitecia. A esperança renovada, nem lágrimas permitia a Prometeu. E a vertigem da liberdade impedia-o de dormir.

Amanhecia. O sino libertava as suas congruentes badaladas. E de novo a águia se soltava do possível, e de novo se lançava sobre o fígado de Prometeu, entretanto regenerado pela pausa da noite.

Em baixo, os venezianos andavam para trás e para diante. Acreditavam no corpo, no prazer, na boa mesa, na poesia, na dança, na viagem, no comércio. Em pouco mais. E tinham razão.

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