segunda-feira, junho 18, 2007

O INACTUAL 17

"The life and times of Judge Roy Bean" - John Huston (1972)


John Huston é um dos grandes irónicos da história do cinema. Atitude que sempre se traduziu num regime de enorme inconstância produtiva, tanto ao nível das estratégias de composição formal das diversas obras que dirigiu (a estética de "The maltese falcon" já nada tem a ver com a de "The dead"), como ao nível da própria qualidade dos seus resultados criativos (o homem que fez o magnífico "The asphalt jungle" não é o mesmo que realizou "Under the volcano", provavelmente uma das piores adaptações de um romance a que o cinema chegou). "White hunter, black heart", uma espécie de biografia apócrifa que Clint Eastwood lhe dedicou, parece confirmar a complexidade dessa relação vida-cinema que não foi gerida de modo a sempre obter os melhores frutos.

Assim, se John Ford tem sentido épico, humor, humanismo, reflexão social, poesia, música, pintura, etc. (é o autor completo), Huston quase só tem a ironia.

"The life and times of Judge Roy Bean" propõe uma grande paródia: à civilização, ao estado de direito, à tirania. Não quer isto dizer que o autor confunda estes diferentes conceitos, mas que ele sabe que eles se relacionam uns com os outros através de reflexos de pura ironia. Afinal, a civilização enquanto abstracção pode ser tão selvagem quanto um indivíduo, o Direito constitui uma forma de violência nem sempre muito ética, muitos governantes usam o discurso da democracia para praticar a ditadura, etc.

Assim, todo o FACTO narrativo é atingido de um modo oblíquo, sem grandeza nem seriedade. O juiz só propõe uma união de facto à rapariga mexicana porque ela perseguiu as suas infidelidades a tiro de espingarda; o mesmo juiz concerta os casamentos dos seus ajudantes com base na fotogenia dos pares (e não por causa de um sentimento ou compromisso); todas as suas palavras de ordem são erros de interpretação da Lei; o seu gesto de tolerância com o médico bêbado é disfarçado com um discurso de pretensa crueldade... Todo o argumento (escrito com talento e sentido de vanguarda por John Milius) parte do princípio de que, para fazer a coisa, é preciso actuar como quem não quer a coisa.

A tensão entre o Direito Natural e o Direito Positivo é aqui vivida como se fosse uma comédia (um insulto à tão grave e mítica Antígona). Pois para Huston, o Direito Natural não parece ser aquele que está acima (e antes) da Lei, mas o que lhe está abaixo. A Lei está, de facto, nos lábios do juiz, legitima-o, mas ele adapta-a constantemente à imperfeição da realidade, como se esta fosse o verdadeiro código ao qual a mesma Lei tem de se rebaixar.

Quando se instala a civilização propriamente dita no pequeno pedaço de cidade do juiz Roy Bean, a décalage entre Lei e Justiça parece ter desaparecido. Parece. Mas o que aconteceu é que a ironia do protagonista foi substituída pelo cinismo. A Lei continua a ser um mero alibi: mas já ninguém assume essa mediocridade.

Eis uma visão corrosiva, angustiada e polémica quanto baste. Não é por acaso que a obra termina com um incêndio que tudo destrói (semelhante às explosões de "Acto da Primavera" de Oliveira ou de "Cet obscur objet du désir" de Buñuel). E que o próprio realizador interpreta o papel de um misterioso misantropo que elegeu os animais como sua companhia.

Sem comentários: