segunda-feira, junho 04, 2007

O INACTUAL 16

"Un condamné à mort s'est échappé" - Robert Bresson (1956)


A quarta longa-metragem de Bresson está contagiada pela fúria da libertação. Pode ser lida como um sisudo thriller prisional, como um comentário subtil mas justo à Segunda Guerra Mundial (não tanto ao nazismo), ou como (e desta vez com mais propriedade) uma parábola de libertação religiosa. O seu subtítulo é mesmo: o vento sopra onde quer (palavras de Cristo).

Não me parece que o silêncio pelo qual o filme é famoso seja equiparável ao nemesiano peso de Deus. Se Deus se dá a ouvir em "Un condamné...", é através da música sacra de Mozart. O silêncio é aqui a evidência física do sufoco concentracionário. É a angústia dos que vagueiam sobre a Terra sem liberdade. Do ponto de vista estético, Bresson procede então à valorização amedrontadora de todo o som que possa habitar esta silenciosa narrativa. Tudo é amplificado, tudo é ameaça, tudo é anti-música: nomeadamente os passos dos carcereiros, que aqui atingem uma dimensão hitchcockiana.

No entanto, Hitchcock ficou famoso por calcular o efeito emocional de cada cena sobre o espectador, e por nunca falhar nessa manipulação (é o seu suspense, mas não só). Ora, Bresson é mais humano, mais modesto. O filme fala de calculismo, claro. O prisioneiro tenta prever tudo o que lhe pode acontecer durante a fuga, e previne-se de acordo com essa racionalização. Só que é a própria narrativa que constantemente salienta que o sucesso depende parcialmente do acaso, e sobretudo da possibilidade de colaboração com outrem. Bresson calcula, trabalha, filma, mas sem a obsessão do sucesso. Não é um predador.

Assim como o seu personagem afia uma colher até esta ganhar a utilidade de um formão, e com ela vai lenta e pacientemente rasgando a porta da sua cela até ela ceder, também o realizador pratica um cinema afiado (ausência de ornamentos, secura de tom, découpage detalhada), e de tenaz insistência (repetição constante do mesmo excerto de Mozart, de cenários - a casa de banho colectiva, de enquadramentos - as janelas gradeadas por onde os presos conversam). É um processo frágil, arriscado. Mas ele prova que um homem se pode libertar de umas algemas pela mera acção de um alfinete. O espectador pode, talvez, ceder.

Cinema ético como o de Rossellini, também nele se impõe a ideia de escrita (o filme começa com o grande-plano de uma mão): nas actividades dos prisioneiros, na narração em off, em toda a construção formal. Não me parece que Bresson tente filmar a palavra (como Dreyer, Straub/Huillet ou Oliveira). Ele verdadeiramente escreve com a câmara (daí a sua importância para o cinema de Godard) . E a sua escrita é resistência.

Por entre exemplos de nobreza de carácter individual e comoventes narrativas de solidariedade, também neste filme se dá espaço à misteriosa injustiça divina: pois é preciso que uns falhem a sua libertação, para que outros a possam alcançar.

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