sábado, junho 02, 2007

Não sou (de novo) especialista

Nova polémica no admirável mundo novo da educação: nas provas de aferição da disciplina de Português, os pedagogos não consideram grave que um aluno, ao responder a uma pergunta de interpretação de texto, cometa erros ortográficos, sintácticos, etc. E dizem que são especialistas, que no meio da orgia de calinadas conseguem detectar o grau de compreensão que o aluno tem do texto, que isto de competências querem-se bem definidas e avaliadas grão a grão.

Longe de mim querer meter-me ao barulho (perante tanta vanguarda pedagógica, começo a tornar-me conservador: o que me parece, mais do desagradável, francamente aborrecido). Todavia, gostaria de colocar duas pequenas questões:

1. Será possível avaliar uma competência de forma tão especializada que se possa fazer tábua rasa das outras competências que dela são mais ou menos dependentes? Não é um indivíduo global, cheio de internos vasos comunicantes, de fronteiras indefinidas e contagiadas, o que se está a construir na escola? Pode um aluno saber tudo sobre o estilo de Mozart, sem conseguir tocar as escalas que o compositor insiste em incluir nas suas obras (pois na sua mão tudo é música)? Pode um professor de língua portuguesa, numa composição que um aluno tenha feito sobre as suas recordações da aprendizagem da tabuada, ignorar a afirmação escrita de que 2x2=5? Pode o professor de Geografia enviar os seus alunos para Viana de Áustria ou para Viena do Castelo? É claro que eu nunca me dei bem com a excessiva especialização, e por isso sou suspeito. Mas o extremo oposto...

2. Por outro lado, se um aluno de piano diz que entendeu a forma como se toca uma determinada frase melódica e, quando a executa no teclado, o resultado é completamente distinto do pretendido, então ele não a entendeu. Pode tê-a entendido verbalmente, mas não a entendeu musicalmente (ou seja, como a conseguir fazer através do uso correcto da técnica). Se a questão anterior era o cravo humanista, então esta é a ferradura da especialização. Pois parece-me a mim que a justa compreensão verbal de um texto (as ideias só se articulam através de palavras) depende da justa articulação verbal dessa mesma compreensão (articulação na qual está incluído o rigor ortográfico, sintáctico, etc.). Dizer que se compreende mas que não se sabe explicar com clareza e correcção, talvez equivalha a não ter, de facto, compreendido. Ou então, vamos acabar por ter alunos que entendem os textos de forma impressionista, que talvez respondam ao questionário de interpretação com uma aguarela ou uma balada (quem sabe). Ou melhor ainda: espertos como são, os adolescentes vão passar a responder às perguntas de interpretação com meia-dúzia de palavras e expressões-chave associadas ao texto (haverá sebentas, explicadores, copianços especializados nisso), que consigam convencer os profs de que perceberam, perceberam muito: não sabem é escrever.
Eu até acho que não sou mau leitor. Quem sabe não ganho uns trocos com isto...

1 comentário:

disse...

Parabéns pelo blog!
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