Poema "O motivo para a metáfora" de Wallace Stevens, traduzido por Maria Andresen de Sousa:
No outono gostamos de estar debaixo das árvores
Por uma semi-morte que há em tudo.
O vento move-se como um coxo entre a folhagem
E repete palavras sem sentido.
Assim, também, fomos felizes na primavera,
Pelas meias cores das coisas às metades,
O céu um pouco mais brilhante, nuvens derretendo,
O simples pássaro, a lua obscura -
A lua obscura iluminando um mundo obscuro
De coisas que nunca seriam bem expressas
Onde tu próprio nunca foste bem tu mesmo
E não quiseste ou tiveste que ser,
Desejando a exaltante mudança:
O motivo para a metáfora retraindo-se
Ao peso do meio-dia inicial,
O ABC do ser,
O rubro humor, o martelar
Do vermelho e do azul, o som áspero -
Em vez de sugestões, o aço - o clarão,
O arrogante e vital, o fatal dominante X.
A coisa permanece: independente da nossa consciência. Existe. E é relativamente inapreensível.
Mas a consciência faz do nosso pensamento um rio que corre em direcção à sua superação pela morte. A coisa é levada nesse rio. Instável, muda de posição, de ângulo, de forma, mergulha, volta à tona, apodrece, é milagrosamente conservada. Nenhuma coisa se mantém nítida para o Homem, pois depende demasiadamente do curso da expectativa, da experiência, do afecto, da imaginação, da cultura.
A metáfora (a coisa assombrada pela consciência) não é, assim, um mero recurso decorativo, mas a expressão espontânea do filosofar não sistemático de todo o indivíduo. E enquanto figura de pensamento, o seu traço mais relevante é a temporalidade. Se uma coisa pode ser submetida à metáfora, é porque essa coisa está inserida no tempo, e com ele muda em espírito. A necessidade de analogia como legitimação da metáfora é, aliás, evidente: uma coisa não pode ser definida por aquilo que, em absoluto, não é. A metáfora é precisamente a mudança de posição, de ângulo, de forma, que a coisa sofre na consciência. É tempo.
Quando Baudelaire convida a mulher desejada a viajar até ao país que a ela mesma se assemelha, não lhe propõe uma viagem no espaço, mas sim no tempo. O país tem mesmo dois sóis (os dois olhos) como numa história de ficção científica. E Benjamin Péret, falando igualmente dos olhos da companheira ideal, diz que eles são olhos de viagem de longo curso.
Wallace Stevens, ao estudar poeticamente qual o motivo para a metáfora, começa por dizer que ela é assumidamente heraclitiana. Ou surge no outono (quando tudo revela o tempo em que a foz se aproxima), ou na primavera (quando o mundo se abre numa infinidade de fontes). Repare-se que, no terceiro verso, o poeta aceita mesmo escrever uma metáfora de enormíssimo poder (o vento parece coxo porque as folhas das árvores impedem a fluência normal do seu passo; mas o certo é que é vento em movimento).
A utopia de Stevens é o encontro daquilo que ele chama o meio-dia inicial (na tradução de Maria Andresen de Sousa). Aquele momento sem meias-tintas, em que as coisas podem finalmente ser bem expressas, em que o sujeito pode finalmente ser ele próprio. Como se o autor entendesse o mandamento socrático "Conhece-te a ti mesmo" como a possibilidade de adquirir um conhecimento estático, sem intervenção do tempo (noutro poema, ele expressa o seu desejo de lago, de estagnação, de sentir da mesma maneira sempre e sempre). Essência livre da existência.
Claro, todas as utopias são contradições. Um dos mais bravos textos de Stevens intitula-se "Aquilo que vemos é aquilo que pensamos", mas termina com o verso: "Pois aquilo que pensamos não é nunca aquilo que vemos". Afinal, o que é a última estância acima transcrita? Um conjunto de metáforas. Apenas um pouco mais secas: podemos passá-las a vau.
O meio-dia inicial só seria possível num mundo onde a vida tivesse o mesmo funcionamento da morte.
Citação do autor: "Yet the absence of imagination had/ itself to be imagined."
Mas a consciência faz do nosso pensamento um rio que corre em direcção à sua superação pela morte. A coisa é levada nesse rio. Instável, muda de posição, de ângulo, de forma, mergulha, volta à tona, apodrece, é milagrosamente conservada. Nenhuma coisa se mantém nítida para o Homem, pois depende demasiadamente do curso da expectativa, da experiência, do afecto, da imaginação, da cultura.
A metáfora (a coisa assombrada pela consciência) não é, assim, um mero recurso decorativo, mas a expressão espontânea do filosofar não sistemático de todo o indivíduo. E enquanto figura de pensamento, o seu traço mais relevante é a temporalidade. Se uma coisa pode ser submetida à metáfora, é porque essa coisa está inserida no tempo, e com ele muda em espírito. A necessidade de analogia como legitimação da metáfora é, aliás, evidente: uma coisa não pode ser definida por aquilo que, em absoluto, não é. A metáfora é precisamente a mudança de posição, de ângulo, de forma, que a coisa sofre na consciência. É tempo.
Quando Baudelaire convida a mulher desejada a viajar até ao país que a ela mesma se assemelha, não lhe propõe uma viagem no espaço, mas sim no tempo. O país tem mesmo dois sóis (os dois olhos) como numa história de ficção científica. E Benjamin Péret, falando igualmente dos olhos da companheira ideal, diz que eles são olhos de viagem de longo curso.
Wallace Stevens, ao estudar poeticamente qual o motivo para a metáfora, começa por dizer que ela é assumidamente heraclitiana. Ou surge no outono (quando tudo revela o tempo em que a foz se aproxima), ou na primavera (quando o mundo se abre numa infinidade de fontes). Repare-se que, no terceiro verso, o poeta aceita mesmo escrever uma metáfora de enormíssimo poder (o vento parece coxo porque as folhas das árvores impedem a fluência normal do seu passo; mas o certo é que é vento em movimento).
A utopia de Stevens é o encontro daquilo que ele chama o meio-dia inicial (na tradução de Maria Andresen de Sousa). Aquele momento sem meias-tintas, em que as coisas podem finalmente ser bem expressas, em que o sujeito pode finalmente ser ele próprio. Como se o autor entendesse o mandamento socrático "Conhece-te a ti mesmo" como a possibilidade de adquirir um conhecimento estático, sem intervenção do tempo (noutro poema, ele expressa o seu desejo de lago, de estagnação, de sentir da mesma maneira sempre e sempre). Essência livre da existência.
Claro, todas as utopias são contradições. Um dos mais bravos textos de Stevens intitula-se "Aquilo que vemos é aquilo que pensamos", mas termina com o verso: "Pois aquilo que pensamos não é nunca aquilo que vemos". Afinal, o que é a última estância acima transcrita? Um conjunto de metáforas. Apenas um pouco mais secas: podemos passá-las a vau.
O meio-dia inicial só seria possível num mundo onde a vida tivesse o mesmo funcionamento da morte.
Citação do autor: "Yet the absence of imagination had/ itself to be imagined."
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