quarta-feira, junho 20, 2007

Distâncias

Há um certo paralelo entre o filme "Lady Chatterley" de Pascale Ferran (autora de quem infelizmente não conheço a restante obra) e diversos aspectos das filmografias de Luchino Visconti e James Ivory. Os três demonstram um certo gosto por uma narrativa académica, encenam dramas exemplares de libertação sexual, polemizam em torno do conceito de revolução (assim como da sua eventual impossibilidade e constante traição), ostentam um moralismo singelo (o marido de Lady Chatterley é tão reaccionário que nos parece que merece a sua impotência física), fazem filmes de época, são virtuosos na direcção dos actores.

Visconti aposta na exuberância operática de uma certa cultura do seu país. Em "Il gattopardo", a apetência sexual de tal modo impele os indivíduos na busca do Outro, que o aristocrata Tancredi despreza as raparigas do seu meio social e procura uma burguesa rica como Angelica. Se o filme transmite a angústia moral (e política) de que tudo muda para que tudo fique na mesma, também isso se pode ver na institucionalização que o amor entre aqueles dois jovens vai sofrer (um matrimónio de teor praticamente igual àquele que existia antes da revolução).

Ferran aposta num erotismo de tom francês. Mas começa logo por adaptar um romance de uma cultura outra. E Lady Chatterley também encontra o parceiro sexual numa classe social distinta da sua. Mas não chega a haver revolução: os amantes não conseguem inventar uma possibilidade para o seu amor. Com tristeza, a autora filma o destino incerto daqueles que têm o dom da vida. Dom esse que, na sua visão, pertence quase exclusivamente ao domínio da Natureza.

Ivory, apesar da sua origem americana, filma com a elegância mítica de um britânico. A busca do Outro arrasta as suas personagens até ao inverosímil (o par final de "Maurice"). Mas o realizador não separa a Natureza da Cultura, nem o Sexo do Amor. Ivory, cineasta desprezado ou celebrado pelas razões erradas, é o mais livre dos três: não precisa de revolução (o seu espírito desconhece as separações artificiais). A mágica propriedade de "Howard's End" é assim herdada por quem a merece, e não por aqueles que a Ordem tenta proteger.

5 comentários:

dora disse...

terapia da normalização, através do Lawrence? Pois sim.... :D

( bom que também já viste o filme ...
Percebo o teu título "distâncias" e os justos paralelos que desenhas.
Mas quero ler Pascal Ferran a partir de outro ponto de vista. Dizes: Mas não chega a haver revolução: os amantes não conseguem inventar uma possibilidade para o seu amor.
Lido por dentro, do interior de cada um deles como um todo absoluto de começo e fim, maior revolução não podia haver. Solidificada no final, firme depois no que acontecer. O "natural/animal" como matéria primeira e base única em si. O florescimento social em seguida, é uma garantia ).

( podes dizer que é um ponto de vista feminino, mas sim : )

pedroludgero disse...

não diria que é um ponto de vista feminino, mas mais optimista do que o meu

É claro que a revolução no interior deles é radical__ Mas parece-me que a ficção de Ferran postula a necessidade de uma mutação social que assegure a continuidade e acima de tudo a transparência dessa revolução (e isso o filme não nos dá como garantia)

o Ivory será um autor menor (enfim, o que é que isso quer dizer?), mas os seus filmes são quase "fantásticos", no modo como ele de facto acredita que a libertação interior (que deve tanto ao natural/animal como ao convívio com a beleza de humana autoria) é suficiente para contagiar o mundo exterior

Enfim: sou um pessimista (e por vezes faço figura de urso por causa disso...) que gosta imenso de viver__ então, também eu me quero perder no dom celebrado por Ferran

dora disse...

eu, não ignorando sombras, escolho sempre a luminosidade.

dora disse...

; )

pedroludgero disse...

eu tento, eu tento__ o sol que aquece, a luz que revela, a alvorada que nos limpa dos sonhos: essa luminosidade sim.

(de qualquer modo, o poema da minha vida é "Le soleil placé en abîme" do Ponge)