quarta-feira, junho 20, 2007

Dúvidas

1. Se o Imaginário da nossa espécie fosse quase todo constituído por uma estética da abjecção, o Homem daí resultante viveria em estado de plena e constante responsabilização política (como parecem pretender os ortodoxos do in-yer-face), ou acabaria por sofrer um radical empobrecimento do seu desejo vital (incluindo o desejo de um mundo melhor)?

2. E de qualquer modo, os criadores abjectos terão realmente vidas que justifiquem a sua suposta ética? Viverão todos com o rigor insuportável de um Luís Pacheco, ou serão amigos de críticos e curadores, negociantes com o Berardo, frequentadores de festivais, com belas carreiras no estrangeiro? Os encenadores da Sarah Kane serão todos assombrados por aquelas tragédias de quem se esqueceu de tomar o Prozac? É preciso notar que o Quentin Tarantino assume que o seu imaginário de sangue e vísceras é pura pulp fiction (e é a partir dessa frivolidade que ele filma). Por outras palavras: acredito de facto na urgência do gesto que está plasmado no "Raging Bull" de Scorsese, mas o Cristo do Mel Gibson já só me dá vómitos.

3. As primeiras imagens dos cadáveres nos campos de concentração nazis tiveram, de facto, um impacto profundo na consciência humana. Ao ponto de podermos quase inventar um novo calendário histórico dividido em a.a. e d.a. (antes e depois de Auschwitz). Mas, com o tempo, todas as imagens de horror (ao contrário do próprio horror) acabaram por se banalizar. Um pouco por culpa da sofisticação violenta do cinema. Muito por causa da televisão: a comoção causada pela imagem da criança africana esfomeada dura segundos (até ao próximo pedaço de suculento rosbife). Ora, se esse tipo de imagem perdeu todo o seu vigor, porquê insistir numa ortodoxia da abjecção?

P.S.: Para os que vão fingir não compreender o post, aviso que não estou a defender uma arte de tontos alegres, nem mesmo um conceito de beleza inofensiva. Estou a tentar dizer que não me parece que haja fórmulas para produzir as verdadeiras ofensivas éticas e estéticas.

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