quarta-feira, junho 27, 2007

Crónica da química

Antes de ter começado a minha especialização em Humanidades (no sentido de seguir a via de algo muito especial), tive de frequentar uma disciplina de estudos chamada Físico-Química.

Aos treze anos, ninguém é tão pouco sério que consiga servir dois científicos senhores. Pois na verdade, a Química é a ciência da infância e das suas reacções contínuas através da adolescência, enquanto que a Física é assunto de gente madura, velha até, gente sisuda que pensa mais do que sente. Por isso, aos treze anos tive de estudar a ciência do que eu era na altura, e a ciência do que haveria de ser. Tudo isso fragilmente divido em semestres, exactamente como o ano fragilmente se divide em aurícolas e ventrílocos.

Aos treze anos, ninguém gosta de Física (excepção feita talvez ao capítulo da óptica, porque a luz chega veloz a qualquer idade). Aos treze anos, toda a gente gosta de Química. De qualquer modo, ajuda ter um professor que se não cortasse o cabelo pareceria um cientista alienado, detentor de um sotaque nada neutrão, e que contava sempre as mesmas piadas como se estas estivessem desde sempre e para sempre escritas numa tabela dos elementos do humor.

E claro: havia também as experiências: aquele potássio que cai sobre a água e provoca a primeira ejaculação.... E as explosões, tudo aquilo que o professor trapalhão não conseguia controlar, e que acabou por descambar em fogos-de-artíficio no momento e em fogos fátuos na memória.

Chegados à idade adulta, todos nos tornamos einsteins dessa coisa tão relativa que é a sobrevivência. No segundo semestre da vida, temos de fazer os testes decisivos, por vezes alcançamos sucesso, mas também aprendemos a reprovar. Não quer isto dizer que já não haja coisas para simplesmente provar: o gosto do saké, fazer surf mal feito na última onda antes dos quarenta, pensar que o filho pode ser um bandalho se o quiser, um corpo mais jovem que nos aflige, ficar apóstata, ficar apóstolo, ou simplesmente tolo. Pequenas e pobres coisas que um qualquer mistério vital torna preciosas, riqueza-humanidade, controlo da morte com factor C.

O envelhecimento transmuta a Química em Alquimia.

2 comentários:

dora disse...

tão bonito!

Miguel Drummond de Castro disse...

"O envelhecimento transmuta a Química em Alquimia", e esta trasmuta o envelhecimento em...

a)Gnose
b)Fénix
c)Heterónimos
d)Trimegista ou Ardanaishwara
e)Inner child
f)Verbo Iluminado
g)Razão Ardente
h)Árvore Interior
i)Nutriente da Kundalini
j)... Juventude Eterna
i) Imensidão Inomeável
k) Energia Ki rectificada
l) Lalita Dharma
m)Myhtos
n)Nictavagalume
o)Osíris Emplumado
p)...


Namasté!