segunda-feira, junho 11, 2007

Como de pão para a boca

Conta-se (pois se o li, muito borgesianamente já não me lembro) que o grande Jorge Luís Borges uma vez disse que, em jovem, procurava metáforas inovadoras e surpreendentes, mas que, com o avanço da maturidade, acabou por descobrir que as metáforas clássicas (antigas, eternas) eram, afinal, as mais justas.

Apesar de toda a admiração que tenho pelo labiríntico escritor, não poderia discordar mais desta afirmação. Afirmação que, aliás, deriva apenas do seu ponto de vista ideologicamente conservador (e que portanto serve para Borges, e não pode constituir uma regra). De qualquer modo, tão estranha me é esta atitude quanto a daqueles que procuram ser originais por método e disciplina.

Para ser coerente com a hipótese que eu próprio levantei em "No escrínio 25", defendo que a metáfora, como aliás tudo o que se refira à escrita de um poema (a escolha das palavras e das imagens, a gestão do tom e da musicalidade, etc.), é um assunto do poeta consigo mesmo. Não no sentido duma prática do isolamento criativo, mas naquele que postula a necessidade de máxima honestidade por parte do artista. Se a criação metafórica é a assombração do mundo exterior feita pelo intelecto, então ela deve ser administrada pela verdade desse intelecto.

A metáfora deve resultar de uma necessidade absoluta. O poeta tem de não poder deixar de a escrever. Se com isso escreve algo de absolutamente novo, óptimo. Mas se apenas descobriu a já descoberta pólvora, isso pode ser igualmente válido (se não se permite que os novos autores tenham algum grau de ingenuidade histórica, ninguém conseguirá escrever antes dos sessenta e cinco anos de idade, e isto tendo passado toda a vida a ler). Até porque as circunstâncias que presidem à criação de um texto são sempre diferentes, e se o autor for genuíno, o seu texto terá de ser também diferente. O que se exige é que o autor que tenha consciência de estar a usar um cliché, transmita essa consciência ao seu leitor.

Enfim, nada é mais irritante do que ver, num texto que se basta a si mesmo, uma metáfora inserida apenas porque sim (ou seja, para fazer literatura). Em certos casos, o abuso metafórico pode mesmo traduzir falta de imaginação (ou obscuridade gratuita). Como tudo aquilo que é (ou pode ser) nobre, a metáfora tem de ser manobrada com delicadeza.

Sem comentários: