segunda-feira, maio 07, 2007

Províncias

Como não conheço suficientemente a região visada pelo espectáculo, não posso dizer se "Por detrás dos montes", peça concebida pelo Teatro Meridional (e agora mostrada no Porto), consegue exprimir a sua identidade, ou apenas mostrá-la (como talvez dissesse Wittgenstein).

De qualquer modo, não é preciso pertencer a um lugar para a partir dele realizar uma criação legítima. Tudo depende da identificação possível entre o criador e os aspectos do lugar aos quais ele se torna sensível. Uma das razões do desastre do filme "It's all true" talvez tenha sido a osmose excessiva que houve entre o espírito indómito de Orson Welles e a magia da terra brasileira. Em compensação, quando Wenders esteve em Portugal, o que ele viu foi fado e uns eléctricos, e não sei mais o quê.

Pelo menos, há um aspecto do espectáculo que patenteia toda a sua legitimidade: o trabalho rural é magistralmente evocado através dos mais delicados processos de sugestão teatral. Como se isso fosse ao mesmo tempo um manifesto e uma evidência. Assim, o grupo de Miguel Seabra parece reclamar para o seu fazer criativo a mesma radicalidade essencial das sobrevivências ancestrais. Porque a utilidade muda de sinal, mas não de peso.

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