domingo, maio 13, 2007

O meu Titi

Nascido um ano e meio antes do 25 de Abril, tendo vivido toda a minha vida pensante em plena Democracia, e tendo sido sempre alérgico aos ácaros e à coisa política, a verdade é que nunca consegui adoptar grandes romantismos ideológicos. E como quase toda a gente da minha geração, é com um sorriso complacente que encaro a estética da revolução ou a retórica marxista.

No entanto, perante certos avatares da mesquinhez humana, sinto-me por vezes forçado a tornar-me uma espécie de Che Sarcasmo, ou seja, sinto um leve acesso de intervenção cívica à-minha-maneira.

Ontem (sábado, 12 de Maio), a TVI mostrou uma reportagem sobre cidadãos portugueses com empregos de sucesso em Angola. Não vale a pena estar com rodeios: era uma reportagem profundamente colonialista. Basicamente, mostrava-se a vida de alguns lusos que foram para África ganhar três, quatro, cinco vezes mais dinheiro do que no país natal, contratantes de mão-de-obra local a ganhar menos do que o salário mínimo português, e ainda por cima recebidos de braços abertos pelos angolanos por causa da sua superior experiência laboral.

É claro que isto é o nosso provincianismo a falar. Portugal tem tantos problemas dentro de si, que já só consegue ser imperialista em reportagens da TVI (a rima foi propositada).

Agora, não sei se o repórter era um falso neutral, ou se afinal tinha um sentido de humor refinado. Pois uma das portuguesas entrevistadas (literalmente uma cidadã de classe média em terra lusa, promovida a capitalista na sua coloniazinha) andou a mostrar para a câmara a sua criadagem como quem mostra vasos da dinastia Ming (não digo animais de estimação, para não evocar lastimosas sentenças de tribunal). Mostrou-nos, por exemplo, a sua Julinha (uma angolana de ar indecifrável, capaz de, entre outros requintes, cortar a fruta tropical de acordo com os caprichos de sobremesa da sua patroa). Mas quando chegou o momento de nos mostrar o seu Titi (o chauffer privativo), não aguentei mais e tive um monumental ataque de riso (foi a minha manifestação de cidadania).

Portugal será isto? Um desgraçado todo inchado que deseja ter o seu Titi?

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