sábado, maio 05, 2007

O INACTUAL 15

"Fury" - Fritz Lang (1936)


O primeiro filme de Lang em Hollywood, produzido pelo sempre ousado Joseph L. Mankiewicz, tem um título curto e grosso, belo pela violência concisa que ao mesmo tempo anuncia e expande.

"Fury" mantém a estratégia de observação paralela que o autor havia adoptado em "M" (a sua obra-prima germânica). Mas enquanto neste filme rodado em torno de um culpado, o paralelismo era assumido pela própria montagem (a boa sociedade e o submundo perseguindo ao mesmo tempo a figura do serial killer, como se este vértice de terror os obrigasse à sincronia), "Fury" distribui os seus dois pesos e medidas em dois momentos diferentes do filme. Ou seja, a personagem de Spencer Tracy (que aqui é o inocente) tem de evoluir psicologicamente para que a narrativa exponha o seu duplo ponto de vista. Assim, a primeira metade do filme encena um linchamento ilegal, a segunda um linchamento ilegítimo (ainda que legal). É o direito positivo contra o direito natural, a justiça institucional contra a boa fé.

É rigorosa a crítica de Lang ao facilitismo moral do cinema. No tribunal, os rostos dos linchadores (dos culpados) são revelados através de uma projecção num ecrã. À partida, o cinema surgiria assim como instrumento de verdade. Mas Lang constrói as imagens de modo tão distinto do resto do filme (recorre a still frames, a ângulos estranhos, à profusão do fogo, da água, dos contrastes de luz e sombra, como se o expressionismo ainda fosse a sua vocação criativa), que nos leva a supor que a dignidade de uma arte está sempre hipotecada numa utopia de que só podemos ter breves vislumbres. O que se defende no tribunal é, aliás, uma causa imoral. Mas defende-se com a verborreia virtuosa e limpa típica de filme de tribunal, como se Lang lançasse uma perversa maldição a todo esse género de cinema que haveria de fazer a boa fortuna de Hollywood. Depois de "Fury", o grande número que todo o actor gosta de fazer no papel de advogado, é sempre apadrinhado pelo fantasma do diabo.

Por outro lado, os elementos típicos de policial, em vez de serem usados para descobrir um criminoso, ou um cadáver, servem para descobrir um vivo, o que vai precipitar a libertação com que o filme se encerra.

E o rosto dessa liberdade é Sylvia Sidney. Talvez porque Lang viu o seu destino dolorosamente separado daquele que a sua mulher Thea von Harbou (que ficou na Alemanha a servir os nazis) escolheu, as suas primeiras figuras de mulheres americanas encarnam uma espécie de generosidade feminina que é, claro está, apenas mítica. Será a sua catarse? Em "You only live once", Sidney será mesmo o anjo que acompanha o herói até aos portões da morte.

Sem comentários: