sábado, maio 26, 2007

O encenador de bancada 3

Valeria a pena tornar-se encenador teatral, só para poder montar uma versão de "O ginjal" de dez em dez anos, até ao fim da vida (ou pelo menos, até ao fim da lucidez).

Valeria a pena construir uma Sala dedicada à peça de Tchékhov: o palco rasgado por uma imensa janela voltada para um jardim de gingeiras. Pois não se pode fingir a intensidade das árvores (como não se pode fingir a intensidade dos actores).


Vi a produção que o "Ensemble" mostrou no Teatro Carlos Alberto da peça em questão. As anotações que se seguem não constituem crítica nenhuma. São apenas as minhas impressões subjectivíssimas (egoístas) sobre o trabalho de encenação que "O ginjal" me parece pedir. Ou seja, são a minha encenação de bancada.


1. A companhia optou por expurgar a peça de quase todo o elemento de preguiça (pois este constitui uma espécie de cliché na abordagem de Tchékhov). No entanto, o segundo acto (indómito, dificílimo pedaço de texto) deixou-me insatisfeito. Na minha (muito pouco) modesta opinião, julgo que não há maneira de lhe fazer justiça senão através da ostentação (psíquica, narrativa, rítmica, plástica) da preguiça. De outro modo, a acção torna-se nefastamente burlesca, demasiado inconsequente. Não entendemos de facto o que se passa no íntimo das personagens.

2. O actor que fazia de Lopákhin talvez não precisasse de representar tanto. O seu aspecto físico era suficiente para dar densidade à personagem. No entanto, no terceiro e quarto actos, quando a sua figura adquire nuances mais sinistras e graves, a tendência para o overacting desapareceu, e o tom tornou-se justíssimo.

3. Emília Silvestre não é a minha Ranévskaia. Imagino-a como a Arkádina de "A gaivota", ou como a Helena que já representou em "O Tio Vânia". Imagino-a como Isabel I de Inglaterra. Ou como uma mulher inteligente com o rosto banhado pelo sol. Mas a intérprete que faz de dona do ginjal tem que transbordar generosidade de um modo explicitamente físico. Emília Silvestre pode ser a tipa mais porreira à face da terra (não a conheço de lado nenhum), mas o seu corpo não me sugere generosidade nenhuma. A sua Ranévskaia acabou por se revelar um pouco cruel.

4. Eu talvez concluísse a peça num tom mais seco. "O ginjal" é muito menos tragédia do que "A gaivota". O abandono do jardim já causa dor que chegue ao espectador. A solidão moribunda do velho criado Firss sugere-me mais ironia amarga do que desespero.

5. A actriz Isabel Queirós interpretou o papel da criada Duniacha. Pareceu-me adequada às minhas memórias: fez-me lembrar aquelas raparigas provincianas muitas magras, finas à maneira das porcelanas para as quais ninguém tem paciência, porventura demasiado asseadas.

6. O que fazer à dificílima personagem de Charlotta? É o terceiro "O ginjal" que vejo, e ainda não a percebi.

7. Magnífica interpretação de Alexandre Falcão (no papel de Firss).

8. Boa ideia de só encher o palco com móveis no último acto. Móveis coberto por lençóis, prontos para a despedida. É só no fim que nos apercebemos da totalidade daquilo que vivemos num lugar ou situação.

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