quarta-feira, maio 16, 2007

O coleccionador 7

Fragmento de um poema de Abû-l-Walîd al-Bâjî, traduzido por Adalberto Alves:


Alá abençoe aquelas duas tumbas
íntima parte do meu triste coração.
quando longe de meus olhos elas estão
a ausência as junta em minha mente
na constância da dor sempre presente.


As tumbas que o texto refere, pertenciam aos filhos que perdeu este poeta do século XI, nascido em Beja. A formulação do excerto é de tal modo sofisticada, que qualquer autor contemporâneo a poderia ter escrito.

Mas se eu colecciono esta pequena peça, é tão-somente porque ela me lembrou um momento da minha infância no qual tive de me submeter a um tratamento de ortóptica, tratamento esse que se resumia à colocação dos meus olhos no duplo visor de uma máquina, e no posterior esforço de junção de duas imagens separadas (uma por cada vista) numa imagem única e comum. Por exemplo, se um olho via uma baliza, e o outro via uma bola, eu deveria conseguir meter um golo por uma técnica de visão que não andava longe do visionarismo surrealista. Presumo, contudo, que o tratamento apenas tenha servido para prevenir o estrabismo.

Também este poeta luso-árabe, na sua máquina de dor, consegue juntar dois grupos de imagens. Por um lado, junta os túmulos físicos (dos quais está longe) aos túmulos guardados na memória. Mas junta também os dois filhos num mesmo sofrimento comum.

A máquina de golear imagens do meu passado faz-me assim supor que a tecnologia pode ser nada mais do que a hermenêutica da poesia. Por isso a ficção científica nos comove.

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