terça-feira, maio 22, 2007

O ACTUAL 11

"Zodiac" - David Fincher


O film noir surgiu como uma espécie de degeneração popular da inquietação metafísica. Veja-se: todo o enredo de policial se centra sempre na descoberta de uma verdade, tudo gira em torno da necessidade de conferir sentido a uma morte, e da vontade de clarificar a identidade de um homem (do Homem). Não é por acaso que "The Maltese Falcon" (a primeira obra oficial do género) adapta um género literário considerado menor a um estilo de iluminação herdado da seriedade filosófica do expressionismo alemão.

O meu film noir favorito é "The big sleep" de Howard Hawks. Pois o realizador, não percebendo nada do entrecho policial do seu argumento (como muitas vezes nada percebemos de um pensamento), filmou a sua matéria em jeito de paródia não assumida. Assim, todo a fita parece reduzir-se ao esforço que Bogart e Bacall fazem para se verem livres de toda a gente (criminosos, vítimas, suspeitos, investigadores, etc.) de modo a poderem ficar sozinhos e começarem a sua relação. Dito de outro modo: o género aborrece-me de morte.

David Fincher é daqueles cineastas (como Hitchcock) que tentam comunicar através das regras codificadas de um género. Em "Zodiac", parece evidente que o realizador defende a tese de que a verdade não pode ser descoberta (nada é verdadeiramente conclusivo até ao fim). Seguindo a metodologia de empobrecimento mítico típica de Hollywood, ele vai comentando o destino frustrado de cada personagem que se lança na demanda da verdade. O polícia (aquele que tem o poder de agir, o ersatz do político) não tem tanto poder quanto supõe, e acaba por perder o prestígio. O jornalista (aquele que tenta descrever a verdade dos acontecimentos, filósofo despromovido) perde a razão. E o cartoonista (o artista de segunda) é o que chega mais perto, mas acaba por ser prejudicado no amor.

Note-se que o Tempo (categoria metafísica essencial) é aqui reduzido a um conjunto de insistentes indicações cronológicas e ao facto de um relógio de pulso ser uma mera prova policial. E o próprio assassino não consegue ser uma personificação do Mal: é um amador na técnica de criar enigmas, não matou tanta gente como diz, parasita os crimes dos outros, acaba por cometer um erro, etc. É um vilãozinho de cinema.

Ora, na medida em que o homem nunca consegue saber tudo sobre a sua verdade (e a do mundo que habita), ele acaba por ter de se abrir ao jogo da probabilidade (Wittgenstein defende que a probabilidade só surge quando não se sabe todas as circunstâncias de um determinado facto). Daí que o filme se chame Zodíaco. Pois a astrologia (a pseudo-ciência da probabilidade) é de facto o medíocre film noir que se sobrepõe à imensa noite metafísica da nobre astronomia. Pedro Mexia diz que este filme não é um ensaio filosófico. Pois não: é precisamente a constatação da impossibilidade de ensaio filosófico. Para Fincher, a Humanidade vive na ilusão da sua grandeza, mas na verdade tem pouco poder (profético e político) sobre a sua sobrevivência.

Fincher é estilista, mas não me parece formalista como Hitchcock (ou seja, alguém que faz, de cada opção formal, uma afirmação semântica). Também não tem a vasta gama expressiva do mestre britânico (que vai do humor negro ao lirismo - sim, basta pensar nos moinhos de "Foreign Correspondent"). E não conseguiu fazer, neste filme, uma panorâmica dessa Humanidade que ele tenta descrever em parábola (como Hitch fez no magnífico "Rear Window"). Mesmo assim, como já não via um grande filme americano há meses, "Zodiac" parece-me ser uma obra absolutamente digna de registo.

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