terça-feira, maio 01, 2007

Nocturno 1

No Capítulo XIV da Segunda Parte do "Dom Quixote", Cervantes põe o seu personagem a conversar, durante a noite, com um estranho Cavaleiro dos Espelhos (um presumível reflexo do Cavaleiro da Triste Figura) que, apesar de descrever com máximo detalhe a figura de Dom Quixote, não o consegue, contudo, reconhecer.

De certa maneira, a noite é um momento existencial. É aquele momento da vida em que a nossa verdade se separa da consciência dessa mesma verdade. Mas esta é uma alienação que pode trazer benefícios.

A noite é o espaço do sonho de Maria Zambrano, quando o homem, desligado do peso omnívoro do tempo, se aproxima do seu ser e pode assim sofrer a progressiva revelação do seu destino. Em "O Castelo", é durante a noite que Kafka dá uma chance de salvação ao seu personagem. Só que enquanto o salvador descreve essa hipótese, K. adormece.

Como somos luminodependentes, talvez a nossa liberdade fosse possível se nos soubéssemos conduzir sob a luz múltipla e democrática das estrelas. Não é por acaso que estas se organizam em constelações, que não são mais do que imaginárias possibilidades.

Mas tudo o que é corpo exige a proximidade devoradora do sol. A vida impede-nos a revolução que a mentira poderia trazer.

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