quinta-feira, maio 31, 2007

No escrínio 24

Imagem roubada em:
http://www.view-card.com


Poema "Gato em apartamento vazio", de Wislawa Szymborska, traduzido por Júlio Sousa Gomes:



Morrer - isso não se faz ao gato.

Pois que há-de um gato fazer
num apartamento vazio.
Ir arranhando as paredes.
Roçar-se por entre os móveis.
Por aqui nada mudou
mas está mais que mudado.
As coisas estão nos sítios,
mas os sítios outro são.
E nem se acende a luz pela noitinha.

Ouvem-se passos na escada,
todavia, não os tais.
A mão que põe no pratinho o peixe
também não é a que antes punha.

Algo aqui não acontece
às horas que acontecia.
Algo há aqui que não corre
como devia correr.
Alguém aqui esteve, esteve,
e agora teima em não estar.

Vasculhados todos os armários.
Percorridas todas as prateleiras.
Uma vez verificado o chão sob a alcatifa.
Contra todas as proibições até,
espalhados os papéis.
Que é que fica ainda por fazer.
Dormir e esperar.

Deixa-o só voltar,
deixa-o lá mostrar-se.
Há-de aprender
que com um gato não se brinca assim.
Há-de um bicho ir-se chegando para perto,
como quem não quer a coisa,
bem devagar,
muito sobre as patinhas ofendidas.
E ao princípio nada de saltar nem de miar.


Este não é um dos meus textos favoritos de Szymborska (tenho uma pequena alergia ao seu tom). No entanto, afigura-se-me paradigmático da sua atitude poética. Pois não me parece que a autora polaca possa ser simplificada ou aprisionada numa estética (e numa ética) da ironia, do como quem não quer a coisa. E nem sequer seria justo dizer que Szymborska tenta escrever com a naturalidade de uma criança.

A poeta tenta é colocar-se sempre no lugar do gato. Ou seja, num ponto de vista inumano (ou melhor dizendo: pré-humano). No culminar de milhares de anos de História, Ciência e Cultura da nossa espécie, há uma corajosa mulher que nos vem dizer que as grandes questões com que sempre nos debatemos continuam a ser espantosas e absolutamente incompreensíveis.

Afinal, como falar da morte? Descrever a agonia dos próximos (mas como fazê-lo de forma justa? e será lícito?)? Citar Schopenhauer, declamar uma elegia de Rilke, ouvir um coral de Bach (mas esses sóis não nascem para todos)? Fazer uma reportagem sobre o assunto (mas se é um assunto de tanta complexidade emocional)? Um ensaio? Sujeitar-se a uma consulta psiquiátrica?

A criança já tem demasiadas coisas a provar. Não: o espanto metafísico (pois é disso que se trata) precisa de um recuo ainda maior, de uma distanciação mais radical. Szymborska escreve como se fosse um gato-filósofo no princípio dos tempos a colocar as primeiras e essenciais questões. É de Homens que ela fala, mas como se estes lhe fossem estranhos ao ponto de só poderem ser entendidos através da... poesia.

Numa escrita em que a imaginação não é galopante (como em Rimbaud), sem imagens fulgurantes (como em Dylan Thomas), pouco dada à rebeldia (como em Baudelaire), modesta no plano formal (enfim, sobre a prosódia não me posso pronunciar), ainda que por vezes dada a versos violentos (como o que abre o poema acima transcrito), toda a força e a originalidade do gesto está dependente desta brutal (e absolutamente anacrónica) redução do pensamento ao seu espanto e urgência originais. E acima de tudo, do facto de que o que Szymborska faz continua a ser poesia, e não filosofia.

E fá-lo, agora é o momento de dizê-lo, com subtil sentido de humor, com pequenas tangentes de ternura, com clareza, elegância, e um rigoroso sentido de comunicação. Que outro poeta poderia dizer algo como: "Não foge a realidade / como fogem os sonhos. / Murmúrio algum, nenhuma campainha / a faz desvanecer, / nenhum brado ou ribombar / dela se solta."

2 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

Eu tenho um caso órfico com os gatos e não há volta a dar-lhe senão ser...gato, porque tenho dezasssete. Ou melhor dito, dezassete gatos tem-me.
Naturalmente isto tem uma dupla face, bem kafkiana de resto, as pessoas começam a olhar para as minhas garras com um ar interrogativo no limiar do hostil e do assustado.(se é que não é a mesma coisa). Por outro lado noto que cada vez mais não consigo disfarçar a cauda.
Dois cães grandes de raça rafeiro alentejano pastoreiam os gatos, que não vão lá miuito à bola com isso.

Mais um cat person,

Miguel


PS os gatos dão-se bem com computadores, adoram o teclado e dormir por cima do ecrã.

pedroludgero disse...

É assim mesmo: dar-se gato, e não perder tempo em fingir-se lebre.

Na verdade, eu ganhei mais a preguiça e a pacificação de uma matriz felina ((fisicamente, não tenho a elegância do gato)).

Mas também ando por aí a construir nove vidas.