quarta-feira, maio 16, 2007

No escrínio 23

Poema de Ibn al-A'lam ash-Shantamarî, traduzido por Adalberto Alves:


este é o rio e estes os seus bosques:
corpo,
cuja a alma é a brisa dos jardins.
rio,
se a brisa dorme à superfície.
cota de malha,
se os ventos sobre ele se perturbam.


No belo poema deste autor luso-árabe do século XII, nascido em Faro, por que razão a alma do corpo fluvial é a brisa dos jardins, e não a dos bosques? Afinal, foram estes os nomeados no primeiro verso (que apresenta os elementos sobre os quais o poema vai discorrer). E um bosque não é, de facto, um jardim. Poderá o escritor ser tão criterioso na sua celebração que, para fazer uma metáfora da alma, não recorre à brisa de um lugar presente (como qualquer outro o faria), mas àquela que (não) chega de um lugar apenas sonhado?

Na verdade, o poeta maneja a metáfora como se esta fosse um recurso deveras metafísico, despido de toda e qualquer intenção ornamental. Repara-se: o rio só conserva a sua verdade ontológica se a alma nele repousar em quietude. Mas quando a alma se acelera e turba, o devir transforma o corpo inicial e faz dele uma cota de malha. Será isso mais, ou menos?

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