sexta-feira, maio 04, 2007

No escrínio 22

Poema de António Franco Alexandre:


em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra de verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.



O poema descreve uma situação simples: alguém tira uma fotografia ao sujeito lírico, provavelmente em frente ao hotel onde fotógrafo e fotografado passaram uns dias de Verão. As folhas de acetato surgem aqui como metáfora da película de 35 mm. É claro que o retrato que o poema evoca pode ser uma descrição escrita: não só o retratista persegue o poeta com nomes, como as próprias folhas de acetato são normalmente usadas como suporte de uma escrita destinada a ser projectada (e atente-se na localização da única vírgula do texto).

Mas o mais relevante é que, enquanto os poetas costumam usar a sua arte para descrever as pessoas que amam, o autor deixa-se aqui ser descrito, é um sujeito que se objectiva a si mesmo. Ou, num palavreado menos sonso: escreve-se a si mesmo enquanto ser amado. Daí que o tom deste texto seja algo dissonante dos restantes poemas do livro em que se insere ("A pequena face", de 1983), na medida em que o poeta simula uma sensibilidade distinta da sua. Afinal, ele pretendeu que o seu livro fosse um mero muro de água onde se tecessem rumores, e que nele se desenvolvesse uma estética próxima do pão e da água, uma estética pequena, portanto (curiosamente, o acetato tem também a ver com a transformação do vinho em vinagre, o que insere uma nota de irrisão na aparente luxúria deste hetero-poema).

A primeira estância é fulgurante. Quando for fotografado (o engano breve), o poeta vai florescer em avenida litoral (provavelmente um dos versos mais belos que A. F. Alexandre escreveu até agora). Daí se retiram os restantes versos. O clique torná-lo-á semente, um céu (talvez o autor distinga sky de heaven, talvez se refira a um dos míticos sete céus, ou pelo menos não conceba o céu como um absoluto indiviso), a terra (o artigo é determinante), sopro de marés. E plantado azul: ou seja, uma flor azul saída da semente, mas também o céu e o mar que assim são simplificados em humildade vegetal. De qualquer modo, tudo isto é litoral (fronteira entre o íntimo e o exterior).

A fotografia permitirá, então, avivar a memória. Se não existisse, a sombra do verão continuaria a regressar ao branco hotel sem que dela houvesse consciência nem lembrança. A fotografia permitirá um despertar. É essa eternidade que só podemos experimentar no instante, e que por isso é uma razão acidulada. A última estância do soneto (chave de ouro sobre a aquosa página, pôr-do-sol, luz sobre os sais de prata) não é mais convencional. É que a imagem poética (e é isso que afinal está aqui em causa sob a retórica da fotografia) consegue congregar, no seu breve e repentino florescer, todos os ex-libris do espectro do tempo. Desde as rosas da primavera até à neve do inverno.

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