sábado, maio 26, 2007

Cerejal, ginjal

1. Em "O cerejal" (ou "O ginjal", consoante o gosto do tradutor), há um conjunto de dramas graves (a morte de um filho no passado, diversas depressões psíquicas, a falência financeira, a menoridade social dos mujikes, o passado esclavagista da Rússia) que pouco conseguem comover o espectador, quando comparados com o abate de algo tão simples e inútil como um jardim de cerejeiras.

Não quer isto dizer que Tchékhov não conhecesse a justa proporção da seriedade das coisas. Simplesmente, o dramaturgo estava consciente de que a verdadeira expressão da emoção só se dá através de uma obliquidade inconsciente. É que há elementos aparentemente fúteis que são excepcionais condutores de sentimentos. É o caso actual do futebol (que os cineastas iranianos têm sabido utilizar como motivo dramático). Só que enquanto o futebol é um derivado da raiva (e daí a euforia viril ou a violência grosseira que engendra), o jardim é um convite à imaginação. Confesso-me irremediavelmente tchekhoviano.


2. Sem o saber, Tchékhov faz em "O ginjal" (ou "O cerejal", conforme o gosto do tradutor) uma espécie de leitura crítica profética do conceito de propriedade privada. A casa (o lugar-eu, o lugar-nós) é o pequeno teatro da nossa vida afectiva. Tudo nela se opõe ao museu: vivos, mortos, familiares, estranhos, objectos, plantas, animais, poemas, música, festa: harmonizam-se entre si na delicada dinâmica que coordena as relações entre expectativa e vitalidade. A peça opõe-se assim a duas das grandes tragédias do século XX: por um lado, a destruição do espaço privado pelo comunismo (iminente na Rússia do autor), com tudo o que isso implicou de devastação bárbara da intimidade humana; por outro lado, a transformação capitalista da propriedade num jogo de especulação financeira, exibição de status social, e degradação materialista. De facto, não há esquerda nem direita: há Tchékhov.


3. De certo modo, Tchékhov é o oposto de Cervantes. Este consegue, na sua obra cómica cheia de sabedoria, partir de um tema sufocantemente esquemático para construir uma das parábolas menos maniqueístas que o homem já engendrou. É um virtuose. Ao contrário, o mestre russo esconde a sua perícia, tudo nele é dom (dávida, atenção ao outro), e por isso se esforçou incansavelmente para que nada nas suas peças fosse simplista, grosseiro, preto-e-branco. Distribui tanta lucidez quanto amor, pratica a mais alegre das tristezas.

Cervantes é o génio. Tchékhov é o companheiro.

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