sábado, abril 28, 2007

Um bocadinho de idealismo

No suplemento ípsilon do PÚBLICO de 27 de Abril, um conjunto de compositores queixava-se (com muita razão) do facto de a dinâmica da música contemporânea ainda estar encerrada no âmbito do gueto dos seus militantes, em vez de fazer parte da regular vida cultural da cidade. No entanto, manifestavam alguma desconfiança face à acção pedagógica sobre os públicos, defendendo que, em certos casos, a música se consegue mesmo impor por mero efeito da emoção imediata que provoca.

Ora, é claro que, se uma obra musical só consegue convencer o seu ouvinte recorrendo ao exibicionismo teórico, isso leva-nos a supor que a sua eficácia é medíocre. O sofrimento que os jovens têm de suportar para entender o funcionamento de algo como a harmonia tonal (muitas vezes nem o chegam a assimilar) mostra como o excesso de complexidade conceptual tende a afastar do convívio com a música todos aqueles que não têm uma vocação especificamente teórica. E a música faz-se sem palavras: sem palavras talvez se possa fazer amar.

No entanto, não podemos cair na má-fé oposta de aceitar de braços abertos o espectador mal preparado, de modo a legitimar o status quo das instituições artísticas com argumentos de romantismo serôdio. Se Julião Sarmento afirma que cria apenas para outros artistas (e como eu o lamento), também já ouvi criadores que defendem que o bom homem ignaro (um avatar do bom selvagem?) é capaz de apreciar a obra de arte à sua maneira, e que isso basta. Assim, os curadores salvaguardam o sucesso das exposições com base num mito, os sobranceiros artistas garantem a sua sobrevivência, e o público (que muitas vezes se passeia pelos museus despejando sarcasmo sobre as peças que vê) sente-se socialmente elevado pela cultura.

Ora eu pergunto: E A COMUNICAÇÃO? A comunicação VERDADEIRA?

O facto é que, no melhor concerto comentado a que alguma vez assisti, o orador era nem mais nem menos do que António Pinho Vargas (um dos compositores referidos no artigo do PÚBLICO). Falou claro, falou apaixonado pela sua matéria, e mais: conseguiu fascinar-me. Foi a partir daí que comecei a apreciar a música de Messiaen. E tenho muita pena de, por causa do horário laboral, não poder integrar os grupos das visitas guiadas do João Fernandes no Museu de Serralves, sempre tão luminosas e despidas de arrogância.

Espanto-me com a proliferação de cursos de escrita criativa (será erro meu, mas se me parece que se pode de facto ensinar a escrever, já não entendo como se pode ensinar a criatividade, que é sempre uma forma de quebrar barreiras estabelecidas), quando precisamos é de cursos de leitura criativa como de pão para boca.

Ninguém precisa de saber quais são as leituras academicamente relevantes e discutidas, ninguém precisa de conhecer Tratados de Estética. E nenhuma opinião deve ter a pretensão de autoridade. Mas é preciso aprender a ler. E é isso que um concerto comentado pode promover. É preciso dar ferramentas, a quem ouve uma peça musical, a quem assimila um texto, a quem contempla um quadro, para que o saiba ler (tendo em conta de que o coeficiente verbal da leitura é diferente em cada tipo de arte).

Nunca consegui separar, em mim, a emoção do pensamento. É como se fossem dois atributos distintos mas coincidentes na mesma substância (diria o Espinosa). E muitas vezes, a emoção acelera a minha necessidade de conceitos, ou a inteligibilidade de uma ideia me faz nascer uma emoção.

E apesar de isto hoje ser politicamente incorrecto, confesso que sempre adorei ter aulas, quando o professor tinha a autoridade do conhecimento e da sedução. Gosto de aprender (em livros, conversas, na blogosfera). Nenhuma oportunidade pode ser desperdiçada.

E quanto aos meus textos, ofereço-os ao leitor para que ele neles viva (se o quiser). Não para que ele finja que os aprecie (muito menos para si mesmo). Na arte, só a sinceridade tem valor. Escrevo para ser mais, cada vez mais igual ao meu leitor.

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