segunda-feira, abril 09, 2007

O tempo perguntou ao tempo

Para a rodagem de "La passion de Jeanne d'Arc", Dreyer contratou uma actriz pouco conhecida (a posteriormente muito famosa Falconetti) e uma legião de actores não-profissionais, de modo a que os baixos custos com os intérpretes permitissem um maior tempo para a feitura global do filme.

(Não estou aqui a defender que os actores não façam dinheiro com os filmes. Espero que ganhem a sua vida, e que a ganhem muitíssimo bem. Mas isso nada tem a ver com a utilização do cinema como uma aposta milionária. O realizador que tenha mais desejo de liberdade do que de publicidade, deve evitar contratar os Beckhams do écran. Até porque nem sempre um actor conhecido é também um bom actor)

Orson Welles queixava-se de não ter tanto tempo para fazer um filme quanto Proust tivera para escrever o seu mega-romance. E se os filmes de Chaplin são tão precisos na técnica do seu burlesco, isso deve-se, em parte, ao facto do realizador ter a possibilidade de experimentar e aperfeiçoar os seus processos durante meses.

Não milito propriamente por um cinema pobre (é preciso ter vocação para isso; já vi filmes que tiveram de ser rodados tão depressa que o trabalho com os actores acabou por ser negligente), mas renego em absoluto a transformação da sétima arte numa manifestação de opulência financeira.

Parece-me que o importante é a gestão eficaz dos recursos de modo a que haja tempo suficiente para que todos os intervenientes na feitura do filme possam dar o melhor de si mesmos (o que implica amor ao métier, amor ao projecto em questão, capacidade de trabalho e experimentação, honestidade intelectual). Em vez de 500 filmes, que se façam 50. Mas que cada um seja assumido como um processo decisivo, uma questão de perfeição-ou-morte, que cada um traga o timbre da mais justa ambição.

É preciso que se faça cinema com o mesmo rigor com que se produz o melhor teatro.

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