sexta-feira, abril 27, 2007

O ACTUAL (número especial)

"The wayward cloud" - Tsai Ming-liang (2005)

Tendo tomado contacto com este filme no Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde há já dois anos, acabei por perder a esperança de que ele se estreasse em salas portuguesas. Como muita gente não terá, portanto, acesso fácil à obra, considero este um número especial da série "O ACTUAL".

Filme genuinamente violento, cheio de negrume, presta-se mesmo ao equívoco de nele não se notar mais nada a não ser uma exploração histérica do acto sexual. Mas o cinema já não produz escândalos pornográficos, pelo que a eventual reacção de rejeição do espectador tenderá a ser fundada em critérios de gosto. Ora, Ming-liang sabe que fez um filme de impossível consenso.

A obra parece ser uma paródia a dois tipos de cinema opostos: por um lado, o musical (onde o amor é adoçado e infantilizado, onde o sexo é sempre sublimado e nenhum incómodo real tem lugar), por outro, a pornografia (cinema cínico, sem alma, onde ninguém ama ninguém). Ou seja, o amor sem realidade, e a realidade sem amor. A cena em que o par protagonista falha a sua primeira relação sexual toma lugar precisamente numa loja com prateleiras cheias de DVDs. E toda a beleza da encenação de Ming-liang passa essencialmente pela apropriação ao mesmo tempo lírica e perversa dos códigos dos dois géneros cinematográficos.

O cinema deixa assim um lastro de satisfação imaginária que os amantes gerem ora melhor, ora pior. A cena mais serena dá-se quando, ao som de música nenhuma, o rapaz está a dançar com a rapariga equilibrado sobre os seus pés. O sexo é substituído pela dança, a música pelo silêncio. Os géneros não se completam: entre-anulam-se. É uma definição, desesperada, do amor. Pois na verdade, não há aqui esperança nenhuma para a dimensão relacional do humano.

Duas cenas levam a fita ao rubro. No início, um homem tem uma relação sexual com uma mulher. No entanto, no lugar do sexo dela, está uma melancia (trata-se de uma fantasia de um filme porno). E é em torno disso que eles retiram o prazer. Eles fodem, portanto, por interposto símbolo (aliás, a lenta aproximação do futuro par é feita através de encontros gastronómicos). Cena surreal, burlesca e, vá lá, erótica, mas acima de tudo metafísica: ninguém faz amor directamente com ninguém. O que os sexos partilham é a ideia do amor.

No fim do filme, o símbolo é descarnado, geometrizado. O rapaz, filmando uma cena hardcore com uma actriz pornográfica inanimada (morta?, boneca insuflada baudelairiana?, monstro felliniano?, revés da Bela Adormecida?), de súbito enfia o seu pénis na boca da namorada, mas fá-lo através de uma janela redonda que tem a forma de uma... melancia. Uma espessa parede separa (visualmente) o par. Num momento de delírio tanto do ponto de vista formal como ficcional, é convocada toda a impossibilidade eterna da união das almas através da reunião dos corpos. A cena é tão comprida, pesada, insistente, violenta, que parece que o autor teve vontade de encenar toda a frustração humana a respeito deste assunto.

No momento da ejaculação, o líquido que vemos não é o esperma, mas sim as lágrimas da rapariga. Mas ninguém sai do filme entristecido (como acontece com "Splendor in the grass"). O incómodo é bem mais drástico.

Sem comentários: