segunda-feira, abril 30, 2007

Necrofobia

Se eu escrevesse uma biografia de Cristo, não falaria sobre a sua vida sexual. Não para ser simpático com dogmas e tabus (que a Igreja usa para conformar uma moral de costumes no limite do criminoso), mas porque as pessoas cuja vida sexual me interessa estão todas vivas.

Dr. Strangelove

Um líder sinistro de um país qualquer veio dizer que não percebe o interesse da comunidade internacional na situação trágica do Darfur, porque há problemas em África que são bem mais graves. Ora, os outros problemas têm de ser sinalizados, analisados, resolvidos. Mas não percebo como é que se pode menosprezar uma catástrofe humanitária classificando-a num espectro de gravidade. Será que ele dá notas, como o Professor Marcelo?

Perante isto, confesso-me bronco, bruto, curto e grosso: não tenho paciência para estes jogadores de xadrez.

Dicionário 9

A polissemia provoca marés (ou estações) em cada palavra onde se aplica.

Uma questão de validade

Neste blogue, o autor confessa a um dado momento que nunca entendeu a poesia do mar. Ora, é precisamente isso que confere validade à poesia. As suas evidências não são impostas por uma autoridade qualquer, mas dependem de um conjunto de acasos, alegrias, sofrimentos, revelações, caprichos, teimosias, sei lá mais o quê, tudo aquilo que não pode ser previsto e torna todos os homens mestiços.

É por Paulo Kellerman não entender a poesia do mar, que eu me sinto legitimado a entendê-la.

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A verdadeira fantasia erótica do realizador de "Les anges exterminateurs" (Claude Brisseau) é a possibilidade de alguém encenar, na vida de outrem, uma experiência sexual de tal modo intensa que tenha o valor de uma revelação. Cada tolo tem a sua mania, e é assim que deve ser. Ainda por cima é uma fantasia de metteur en scène, e por isso faz todo o sentido que desse fantasma surja um filme. Buñuel, Hitchcock, Fassbinder ou Oliveira partilharam as suas obsessões nesse domínio com os seus espectadores.

Já o dilema moral do artista-mártir por ter dado novos mundos ao mundo, não sei porquê, mas não me conseguiu convencer.

E como o filme tem pouco a oferecer do ponto de vista da criatividade cinematográfica, a sua validade depende essencialmente do encontro das fantasias do espectador com as do autor. Ou seja, o filme funciona para quem gosta de mulheres, para quem gosta de lésbicas, para quem sonha fazer sexo em locais tabu, etc., etc.

sábado, abril 28, 2007

Invulgares de Linneu 8


Guarda-rios

(Canto: zii-ti, raramente ouvido)
Informação do Guia de Aves da Assírio e Alvim

O coleccionador 6

No poema "A furna" (incluído no livro "O Bicho Harmonioso"), Vitorino Nemésio diz ao leitor que se debruçou no seu próprio poço de modo a poder ouvir o seu coração (tudo isto é conotação convencional), e que por causa disso ficou pálido e sem pulso: o sangue fora-lhe todo para os ouvidos (agora surge uma denotação que desconstrói).

Uma deliciosa ironia que muito nos diz sobre a relação corpo/pensamento.

Relicário de Vitorino Nemésio

Eis alguns notáveis excertos de poemas do livro "O Bicho harmonioso" (1938):


Já resolvi ficarmos tristes
Para matar a fome,
Que os tristes a tudo são fatais.
--------------------------------

Seja a tristeza como cousa
Que só o peso realiza
E a alegria do que não ousa
Aceitar a terra que pisa.
-------------------------

Deixem-me ouvir nesse antigo
Búzio de sala (que agora
Os sobrados são o mar)
As vozes que ele traz consigo
Como o relógio dá a hora
Sem a gente lhe tocar.
-----------------------

Deixem-me só no mar, não aluguem o bote:
Medi o salto e o mundo antes de me atirar.
Assim, não há ninguém que me derrote:
Afogado ou flutuante, hei-de chegar.
--------------------------------------

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim -

O artista de plástico 4

Peça: Ice Tea


Processo:
1. Disponha, sobre um suporte que considere adequado, um conjunto de grandes cubos de gelo, de modo a formar uma cruz.
2. Sobre o T assim formado, coloque a imagem de um Cristo crucificado.
3. Acelere o processo de passagem do gelo a água líquida com um secador, uma aquecedor, ou qualquer aparelho do género.
4. Registe a cena em vídeo (a sua peça será o registo, não a performance).
5. Para a banda sonora, registe a encenação de uma conversa de respeitáveis senhoras a tomarem o seu chá das cinco, enquanto discutem (com conhecimento de causa) alguns dogmas do cristianismo. A cena deverá revelar uma absoluta tranquilidade.
6. Junte a imagem ao som.
7. Sirva sem enfeites.

a. Não acelere a imagem captada pelo vídeo. O espectador deverá ter a impressão de que o gelo está a derreter em tempo real.
b. Variante: pode construir uma peça semelhante, mas fazendo incidir a conversa das senhoras em torno do sentido da bela mas misteriosa palavra "cristel". Terá alguma coisa a ver com Cristo? Com cristal?

Post desinteressante

Talvez não fosse assim tão absurdo conceber uma Ética baseada na ideia do desinteresse pelo próximo.

Algum benefício haveria de resultar do facto dos Outros não serem suficientemente interessantes para lhes infligirmos sofrimento. Visto que o Mal implica sempre ou algum prazer ou pelo menos a concepção do Outro como obstáculo, o desinteresse traria preguiça para o impulso cruel, sem que para isso fosse preciso alimentar ilusões quanto à natureza humana.

E por outro lado, que esplendoroso mundo seria este se ninguém tivesse interesse na modificação do Outro, na sua salvação? Já tivemos os missionários a imporem o catolicismo aos povos colonizados, Bush levando a democracia ao mundo à força de bombas, os taliban a protegerem o sexo feminino da suposta imoralidade. E sejamos francos: não é claro se o falhanço do comunismo se deveu apenas a uma traição da Revolução, ou se haveria uma componente da sua utopia que era sádica não por ser interesseira, mas simplesmente por ser interessada. Gosto mais do Cristo que tentava libertar do que aquele que conseguía salvar.

Importante seria o restabelecer de um sentido de urgência, que desapareceu por completo do mundo confortável do Ocidente (como esquecer Nova Orleães). Uma urgência fundada no mais puro instinto de sobrevivência. Talvez assim pudéssemos sentir interesse pelo distante.

Um bocadinho de idealismo

No suplemento ípsilon do PÚBLICO de 27 de Abril, um conjunto de compositores queixava-se (com muita razão) do facto de a dinâmica da música contemporânea ainda estar encerrada no âmbito do gueto dos seus militantes, em vez de fazer parte da regular vida cultural da cidade. No entanto, manifestavam alguma desconfiança face à acção pedagógica sobre os públicos, defendendo que, em certos casos, a música se consegue mesmo impor por mero efeito da emoção imediata que provoca.

Ora, é claro que, se uma obra musical só consegue convencer o seu ouvinte recorrendo ao exibicionismo teórico, isso leva-nos a supor que a sua eficácia é medíocre. O sofrimento que os jovens têm de suportar para entender o funcionamento de algo como a harmonia tonal (muitas vezes nem o chegam a assimilar) mostra como o excesso de complexidade conceptual tende a afastar do convívio com a música todos aqueles que não têm uma vocação especificamente teórica. E a música faz-se sem palavras: sem palavras talvez se possa fazer amar.

No entanto, não podemos cair na má-fé oposta de aceitar de braços abertos o espectador mal preparado, de modo a legitimar o status quo das instituições artísticas com argumentos de romantismo serôdio. Se Julião Sarmento afirma que cria apenas para outros artistas (e como eu o lamento), também já ouvi criadores que defendem que o bom homem ignaro (um avatar do bom selvagem?) é capaz de apreciar a obra de arte à sua maneira, e que isso basta. Assim, os curadores salvaguardam o sucesso das exposições com base num mito, os sobranceiros artistas garantem a sua sobrevivência, e o público (que muitas vezes se passeia pelos museus despejando sarcasmo sobre as peças que vê) sente-se socialmente elevado pela cultura.

Ora eu pergunto: E A COMUNICAÇÃO? A comunicação VERDADEIRA?

O facto é que, no melhor concerto comentado a que alguma vez assisti, o orador era nem mais nem menos do que António Pinho Vargas (um dos compositores referidos no artigo do PÚBLICO). Falou claro, falou apaixonado pela sua matéria, e mais: conseguiu fascinar-me. Foi a partir daí que comecei a apreciar a música de Messiaen. E tenho muita pena de, por causa do horário laboral, não poder integrar os grupos das visitas guiadas do João Fernandes no Museu de Serralves, sempre tão luminosas e despidas de arrogância.

Espanto-me com a proliferação de cursos de escrita criativa (será erro meu, mas se me parece que se pode de facto ensinar a escrever, já não entendo como se pode ensinar a criatividade, que é sempre uma forma de quebrar barreiras estabelecidas), quando precisamos é de cursos de leitura criativa como de pão para boca.

Ninguém precisa de saber quais são as leituras academicamente relevantes e discutidas, ninguém precisa de conhecer Tratados de Estética. E nenhuma opinião deve ter a pretensão de autoridade. Mas é preciso aprender a ler. E é isso que um concerto comentado pode promover. É preciso dar ferramentas, a quem ouve uma peça musical, a quem assimila um texto, a quem contempla um quadro, para que o saiba ler (tendo em conta de que o coeficiente verbal da leitura é diferente em cada tipo de arte).

Nunca consegui separar, em mim, a emoção do pensamento. É como se fossem dois atributos distintos mas coincidentes na mesma substância (diria o Espinosa). E muitas vezes, a emoção acelera a minha necessidade de conceitos, ou a inteligibilidade de uma ideia me faz nascer uma emoção.

E apesar de isto hoje ser politicamente incorrecto, confesso que sempre adorei ter aulas, quando o professor tinha a autoridade do conhecimento e da sedução. Gosto de aprender (em livros, conversas, na blogosfera). Nenhuma oportunidade pode ser desperdiçada.

E quanto aos meus textos, ofereço-os ao leitor para que ele neles viva (se o quiser). Não para que ele finja que os aprecie (muito menos para si mesmo). Na arte, só a sinceridade tem valor. Escrevo para ser mais, cada vez mais igual ao meu leitor.

sexta-feira, abril 27, 2007

"The wayward cloud" - imagem

O ACTUAL (número especial)

"The wayward cloud" - Tsai Ming-liang (2005)

Tendo tomado contacto com este filme no Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde há já dois anos, acabei por perder a esperança de que ele se estreasse em salas portuguesas. Como muita gente não terá, portanto, acesso fácil à obra, considero este um número especial da série "O ACTUAL".

Filme genuinamente violento, cheio de negrume, presta-se mesmo ao equívoco de nele não se notar mais nada a não ser uma exploração histérica do acto sexual. Mas o cinema já não produz escândalos pornográficos, pelo que a eventual reacção de rejeição do espectador tenderá a ser fundada em critérios de gosto. Ora, Ming-liang sabe que fez um filme de impossível consenso.

A obra parece ser uma paródia a dois tipos de cinema opostos: por um lado, o musical (onde o amor é adoçado e infantilizado, onde o sexo é sempre sublimado e nenhum incómodo real tem lugar), por outro, a pornografia (cinema cínico, sem alma, onde ninguém ama ninguém). Ou seja, o amor sem realidade, e a realidade sem amor. A cena em que o par protagonista falha a sua primeira relação sexual toma lugar precisamente numa loja com prateleiras cheias de DVDs. E toda a beleza da encenação de Ming-liang passa essencialmente pela apropriação ao mesmo tempo lírica e perversa dos códigos dos dois géneros cinematográficos.

O cinema deixa assim um lastro de satisfação imaginária que os amantes gerem ora melhor, ora pior. A cena mais serena dá-se quando, ao som de música nenhuma, o rapaz está a dançar com a rapariga equilibrado sobre os seus pés. O sexo é substituído pela dança, a música pelo silêncio. Os géneros não se completam: entre-anulam-se. É uma definição, desesperada, do amor. Pois na verdade, não há aqui esperança nenhuma para a dimensão relacional do humano.

Duas cenas levam a fita ao rubro. No início, um homem tem uma relação sexual com uma mulher. No entanto, no lugar do sexo dela, está uma melancia (trata-se de uma fantasia de um filme porno). E é em torno disso que eles retiram o prazer. Eles fodem, portanto, por interposto símbolo (aliás, a lenta aproximação do futuro par é feita através de encontros gastronómicos). Cena surreal, burlesca e, vá lá, erótica, mas acima de tudo metafísica: ninguém faz amor directamente com ninguém. O que os sexos partilham é a ideia do amor.

No fim do filme, o símbolo é descarnado, geometrizado. O rapaz, filmando uma cena hardcore com uma actriz pornográfica inanimada (morta?, boneca insuflada baudelairiana?, monstro felliniano?, revés da Bela Adormecida?), de súbito enfia o seu pénis na boca da namorada, mas fá-lo através de uma janela redonda que tem a forma de uma... melancia. Uma espessa parede separa (visualmente) o par. Num momento de delírio tanto do ponto de vista formal como ficcional, é convocada toda a impossibilidade eterna da união das almas através da reunião dos corpos. A cena é tão comprida, pesada, insistente, violenta, que parece que o autor teve vontade de encenar toda a frustração humana a respeito deste assunto.

No momento da ejaculação, o líquido que vemos não é o esperma, mas sim as lágrimas da rapariga. Mas ninguém sai do filme entristecido (como acontece com "Splendor in the grass"). O incómodo é bem mais drástico.

Entre a insensibilidade e o cliché

"(...) Mas, posto tudo isto, caí, Sancho, na conta de uma coisa, e é que me pintaste mal sua formosura: porque, se não recordo mal, disseste que tinha os olhos de pérolas, e os olhos que parecem de pérolas antes são de besugo que de dama; e, ao que eu creio, os de Dulcineia devem ser de verdes esmeraldas, rasgados, com dois celestiais arcos que lhes servem de sobrancelhas; e essas pérolas, tiras-lhas dos olhos e pões-lhas nos dentes, que sem dúvida te trocaste, Sancho, tomando os olhos pelos dentes."

Miguel de Cervantes (tradução de Miguel Serras Pereira)

Segunda Parte, Capítulo XI

Perante uma trupe de actores trajada de modo a parecer a Morte com o seu séquito, Dom Quixote, um pouco mais sensato que o usual, diz que está impedido de os combater, por não haver entre eles nenhum cavaleiro andante. Mas se Sancho se quiser mandar à aventura... Coisa que o tosco escudeiro rejeita com prontidão.

Tudo o que um louco faz tem sentido. E o Cavaleiro da Triste Figura mostra assim como a Morte não lhe chega aos calcanhares, é coisa plebeia contra a qual não vale a pena lutar porque não se compara nem aos seus sonhos nem à sua generosidade. Alguns gregos da Antiguidade não desdenhariam desta soberba.

quinta-feira, abril 26, 2007

Evolução

H. Sou completamente a favor de um acordo de cavalheiros entre os falantes da língua portuguesa. Desde que seja para tornar a ortografia ainda mais barroca, sonhadora e sugestiva do que já é. Desde que se inventem novos sabores e desafios ortográficos. Menos esperanto, muito mais quimbundo.

K. Sou também a favor da plena aceitação pela língua dos desvios ortográficos que a geração e-mail/telemóvel desenvolveu. Mas sem fazer disso gramática: é preciso deixar o corpo à solta.

Bzz bzz ortográfico

As consoantes mudas servem para dizer o indizível.

Por exemplo, os insectos. No Brasil, eles são o perigo-nosso-de-cada-dia, são quotidianos, vistosos, abundantes, enormes, originais. São insetos. A plebe tu-cá-tu-lá.

Mas no frio Portugal, os pobres bichos são mais raros, mais inofensivos, menos devedores da imaginação, sobreviventes-quase-de-estufa. São mais nobres e indefesos. Precisam de um não sei c de distinção.

quarta-feira, abril 25, 2007

Tentações

Este blogue esteve para publicar um post com o título Cartão Vermelho.

Mas este blogger, que não é livre de grandes penalidades, não o deixou.

Cartão amarelo







Poema-desenho


(De Ana Hatherly)

Cont.

O poema comentado no post anterior tem mais duas partes. Transcrevo aqui a última, que me parece particularmente bem conseguida:


O voo do pavão
cruza o ar da página
e logo pára
pousando na copa do sentido

O seu largo leque
só se abre
quando alguém o vê
quando alguém o quer

Só então desdobra
o radioso encanto
do seu frágil mistério

(Nota: a segunda estância está transcrita com uma disposição gráfica diferente da verdadeira, porque eu não a consigo reproduzir correctamente aqui no blog)

No escrínio 21

Primeira parte do poema "O pavão negro", de Ana Hatherly:


O pavão negro da escrita
abre um leque de opções
exibe o luxo
do seu traje-cárcere

Babel silente
no vazio da página
prende o tumulto da voz
fixa o assalto da mão

Última instância rebelde
é jogo
luta
luto
grito calado


Este poema da escritora-pintora apresenta um discurso relativamente claro: o texto escrito está sempre aberto a múltiplas possibilidades de sentido, na medida em que aquilo que ele guarda dentro de si é precisamente essa potencialidade. Ou seja, assim como a cor negra possui todas as cores, sem revelar nenhuma, também a escrita (geralmente tipografada a preto) tende para uma obscuridade fértil.

No fim do texto, a poeta enumera quatro características da escrita. Ela é um jogo, uma luta, um luto, um grito calado. E o poema dá cabal cumprimento a este vasto programa.

A escrita é um jogo. Jogo demiúrgico, na medida em que autora inventa uma ave que não existe na realidade (todos os pavões são coloridos). Jogo especificamente verbal na criação da palavra traje-cárcere. Mas também, e abandonando esta esfera do brinquedo, jogo social: a poeta apresenta-se vestida com um luxuoso traje, segurando um leque típico do imaginário burguês de antanho. Claro que o verdadeiro luxo é o facto do traje ser ao mesmo tempo um cárcere (um guarda-cores).

Além do mais, o negro é uma cor que indicia uma certa distinção, que a escritora reclama quando pega numa expressão popular (a metáfora morta do leque de opções), e lhe dá um sentido ao mesmo tempo mais amplo e perverso. E haverá alguma coisa mais arrogante do que a construção da Torre de Babel?

A escrita é também uma luta. Nela estão condensados o tumulto e o assalto dos rebeldes. De certo modo, esta dimensão mítica entra em contradição com a anterior (não a anula, mas provoca uma tensão).

E a escrita é ainda um luto. A cor negra o simboliza, mas também o vazio da página, o silêncio de Babel, ou a paragem do tumulto. Luto talvez pela cor (pelo sentido), pela vida (que sofreu uma pequena morte para se tornar literatura), ou tão-somente pela fixação do movimento. De qualquer modo, tanto a vaidade como a missão política são abaladas por algo mais profundo.

E por fim, grito calado. Se esta Babel (esta multiplicidade de vozes) está silente, se o negro é portanto mudo, o facto é que na última estância do poema, a escrita é reconhecida como a última instância rebelde. É uma urgência (jogo, luta), um último recurso (luto), um tribunal supremo onde o juiz foi substituído por um irreverente que dita leis ambíguas.

Disposto assim no vazio da página (artista plástica, Ana Hatherly exibe, expõe, o quadro-texto), o poema abre-se perante nós como uma magnífica cauda de pavão. Três instâncias cada vez mais latas: a criação surrealista da imagem, o discurso que ela produz, a exploração de todas as consequências que derivam da criação e do pensamento.

Trata-se de uma Arte Poética: um poema que abre o leque dos poemas que se podem ou não escrever.

Venha o próximo leitor, e continue a escavar o negro.

(Nota: a última estância está transcrita com uma disposição gráfica diferente da verdadeira, porque eu não a consigo reproduzir correctamente aqui no blog)

terça-feira, abril 24, 2007

A tragédia

"E aquilo que se exprime no sacrifício é o princípio pelo qual na vida humana o infinito toma a mesma direcção do finito."
Northrop Frye (tradução de Luís Lima Barreto)

Cantiga

Se o chapim-de-bigodes não tivesse estudado, era o Pedro Abrunhosa.

sexta-feira, abril 20, 2007

Invulgares de Linneu 7


Chapim-de-bigodes

(Canto: pshin-dshick-tschreeh)
Informação do Guia de Aves da Assírio e Alvim

O artista de plástico 3

Peça: Pássaros de corpo e alma (celebração do lápis)


Processo:
1. Como base, use uma folha A5 de papel azul-céu.
2. Afie um lápis várias vezes, sempre com cuidado extremo. Recolha as suas aparas o mais inteiras que conseguir, e conserve-as intactas.
3. Com um spray de tinta amarela pouco requintada, desenhe um sol tosco no papel.
4. Cole algumas aparas no suporte. Com o lápis que lhes deu origem, desenhe, de um lado de cada apara, uma esfera negra (uma cabeça). Do outro lado de cada apara, desenhe duas linhas sugestivas da cauda de uma ave. Faça assim diversos pássaros estilizados (crie o seu bando).

a. Repita a operação com lápis de diversas cores, nunca formando um pássaro cujas asas não sejam a apara do lápis com que desenhará a cabeça e a cauda.
b. Seja criativo com a composição geométrica de cada bando de pássaros. Relacione-a com a esfericidade do sol.
c. Aplique outros elementos celestes (por ex., nuvens).
d. Nunca use uma folha maior do que A5: esta é uma peça devocional.
e. Nunca decida, para você mesmo, que parte do lápis representa o corpo, e que parte representa a alma.
f. Dedique o trabalho a Lourdes Castro (que usou aparas nos seus trabalhos), a Tápies (que fez celebrações), e a Messiaen (o compositor que deu voz aos pássaros).

Vanguarda interpretável

A imagem artística é sempre uma vanguarda interpretável.

Vanguarda, porque o seu tempo é distinto do tempo da realidade. Um louco ou um homem de fé (não estou aqui a confundi-los) podem mesmo supor que a imagem é sempre, sempre verdadeira (como se o homem não pudesse conceber o inconcebível). E por isso, aquilo que nela nos parece fantasia, pode resultar apenas do facto circunstancial de que, na época em que a imagem foi feita ou é contemplada, ainda não ter sido resolvido o possível que a imagem já consegue encenar.

Interpretável, porque a sua verdade depende sempre de uma leitura. A verdade científica é independente da sua aceitação social ou do seu eventual conhecimento pelo público. Mesmo a verdade filosófica resulta em parte de um debate trans-histórico onde o melhor argumento impõe a autoridade da sua racionalidade (e onde não se pode ser subjectivo, mas sim crítico). Em compensação, a verdade criativa é sempre o fruto do modo como a criação é lida.

E ler é difícil. Não se pode ler o que não está na imagem. É irrelevante ler como outros já leram. Não se faz justiça simplificando grosseiramente aquilo que na imagem é clareza ou ar do seu tempo. Nem complicando à toa a denotação. A leitura é a medida da generosidade da imagem, é o alargar sensato e sobretudo honesto das fronteiras do seu sentido. É a segunda parte da criação.

Por isso eu digo a mim mesmo muitas vezes: é por querer viver, na arte, o real, que eu não acredito no realismo.

quinta-feira, abril 19, 2007

O sentido de urgência

É preciso tomar muita atenção a esta notícia, e a outras semelhantes que aí venham.

Confissão 20


Confesso que os meus dias favoritos do ano são aqueles dois ou três dias específicos que, pela acção de um sol ainda brando mas já evidente, sepultam definitivamente o Inverno e profetizam o Verão.

Dias que cheiram a calor (mas que ainda a ele não sabem). Estes dias.

Confissão (ensaio)

Rossellini construiu o catolicismo mais original, livre e até herético da História do Cinema.

Em "O medo", filme ainda hoje considerado menor, a apropriação que o Homem sempre faz da figura religiosa da confissão é fortemente criticada pelo realizador (basicamente, o confessor reduz-se a um manipulador do conceito da culpa, a um chantagista).

Ora, o Deus do autor é a Sinceridade (daí a relevância deste filme no seu pensamento). Seja na epifania do final de "Viaggio in Italia", seja na erupção que conclui "Stromboli", as suas personagens são sempre levadas até ao mais fundo de si mesmas. Por isso, em "O medo", o que está em causa não é o pecado, mas a constatação de que a única virtude da ameaça de confissão é a possibilidade de pôr em causa a validade e o sentido de estar vivo. Assim sendo, confessar é picar o ponto; mas ter vontade de confessar já é metafísica.

Tudo se passa no íntimo, sem instituições (religiosas ou cinematográficas), sem representantes da divindade, sem dogmas nem sermões.

Poesia, pintura, cinema

"Os elementos da imagem são mandatários dos objectos na imagem."
Ludwig Wittgenstein (tradução de M. S. Lourenço)



De qualquer modo:

a imagem só é falsa quando pretende ser verdadeira, e a comparação com a realidade desmente tal pretensão.

terça-feira, abril 17, 2007

Crónica da manga

Um dia destes, uma manga mais espaçosa e grosseira sugeriu-me que aquilo que eu estava prestes a comer se parecia com uma bola de rugby.

Metáfora nada indigesta, aliás mais aperitivo que digestivo. Comecei logo a supor que desde a plantação inicial do fruto num país tropical, até ao meu prato, passando pelo cuidado agrícola, o esforço de colheita, a viagem sobre o oceano, a venda, tudo isso fora feito por homens rudes, fortes, francos, homens ainda capazes de fazerem valer o seu corpo, sem delicadezas desnecessárias, nem maldades requintadas.

O próprio acto de retirar a casca à manga se me afigurou um desafio (como se eu fosse ainda criança a descascar o meu primeiro fruto). E aí tudo surge: a adrenalina, a vontade de vencer, um certo sentido de táctica, faltas, cartões punitivos de mau comportamento, por vezes até a excitação de um público.

E não sei se isso se refere especificamente à minha bola de rugby, mas nestas andanças de descascar frutos e separar ossos de frango, há sempre imensas superstições que arranjam maneira de se impor. Pode ser o não ficar solteiro, o ter filhos rapazes ou raparigas, o morrer mais tarde ou mais cedo, o ter sorte na vida, ou o sair vencedor nos jogos da paixão, preocupações simples que pertencem à infância do mundo, e que por isso mesmo me parece bem que estejam na mão de homens que não pretendem crescer.

E no fim de tudo, o golo: o sabor do fruto a invadir a minha boca.

Galeria 23


Vladimir Nabokov

Ao contrário

E se o mundo fosse ao contrário?

Se houvesse uma única gota garantindo o sistema de planetas, e os dias se sucedessem em estados de água sólida, líquida ou gasosa? (Se os primitivos tivessem sido forçados a descobrir como produzir água)

Se de nuvens luminosas chovessem milhares de sóis, ficando a luz dependendo das condições climatéricas, das estações? (Se houvesse um ciclo da luz)


)Post inspirado por isto(

Mais olhos que barriga

O cinema contemporâneo resolve o problema dos custos e incómodos logísticos associados à filmagem de multidões através da substituição dos corpos humanos necessários a essas imagens por miragens digitais.

Procedimento correcto do ponto de vista da economia. Mas já coloco as minhas reservas quanto à bondade ética da estratégia. Custa-me compreender a ligeireza do realizador que é capaz de encenar um outro ser humano reduzindo-o a um efeito especial. Mais do que a demissão, espanta-me a indiferença perante a dignidade com que (suponho) uma câmara deveria tratar qualquer indivíduo (mesmo que ele seja irrelevante para a dramaturgia proposta). Questão de valores, claro está.

(O próprio gosto de filmar grandes multidões talvez não seja indício de uma estética fascizante, mas pelo menos sugere uma megalomania com eventuais contornos psiquiátricos. Em inglês, para designar um figurante utiliza-se a palavra extra.)

De qualquer modo, mesmo do ponto de vista estético a atitude nem sempre tem grande lógica. Que vejamos Jessica Rabbit feita desenho-animado com ambição antropomórfica, isso é legitimado pela estética de um filme que (goste-se dele ou não) é formalmente coerente. Ora, o uso das novas tecnologias (fascinante em abstracto) nem sempre é acompanhado por um pensamento teórico (que não precisa de ser verbalizado, nem sequer particularmente consciente) que integre essas tecnologias no mecanismo de sentido de cada filme.

Assim, o que vemos são homens e mulheres substituídos pelo produto das máquinas que eles próprios criaram. Nada de muito grave. Mas é assim que os cineastas se vão definindo.

O artista de plástico 2

Peça: Fogo Morse


Processo:
1. Como base, use um papel denso e amarelado.
2. Pegue num conjunto de fósforos. Incendeie alguns. Separe todas as cabeças (as que estão queimadas e as que não o estão) dos seus palitos. Com o material assim encontrado (- e .), escreva sobre o papel, em código morse, a expressão "Pintura moral".
3. Cole a frase assim achada sobre o suporte.
4. Exponha a obra, devidamente emoldurada.

a. Use cabeças queimadas ou não queimadas conforme isso lhe parecer mais apropriado para cada letra a ser representada. Crie a sua interpretação da peça através dessa estratégia.
b. Use apenas palitos por queimar.

segunda-feira, abril 16, 2007

Tecnologia de ponta

O poeta não deve dizer o mel. Deve dizer o mel de Suleimaniya.

A poesia é uma arma de precisão. E por isso aquele que a pratica deve nomear os seres na sua irredutível individualidade, na sua ligação a um contexto concreto, a uma narrativa concreta, a uma mitologia inconfundível. A vida nunca é vaga.

O poeta nem deve recear que assim a sua obra se torne densa e provocadora como uma selva luxuriante. O seu melhor leitor será aquele que no seu texto descobre um continente muito antigo, mas inexplorado. Leitor que se tenta tornar cientista de um mistério. Uma mosca no mel.

O poeta deve resistir aos colonizadores, aos missionários, aos arroteadores.

domingo, abril 15, 2007

Partilha 11

azure pearls

os teus olhos são dois agératos-do-méxico
a secar dentro dos ventres
de dois escaraVelhos

carregam seu imenso destino dioscuro
ora na posse do visconde de noailles
ora na do barão nicolas de gunzburg

estrabismo de a césar dar o que é de césar
quando ser nobre é partir nozes
directamente com a mão


(Excerto do poema "Catálogo da Cartier", pertencente ao meu livro inédito "nu abrir em nó". O livro é a minha contribuição para o universo da lírica amorosa)

Invulgares de Linneu 6


Gauro Whirling Butterfly

O INACTUAL 14

"O FIM" (1992) e "VIDA" (1993) - Artavazd Pelechian


O FIM
A morte é definível através de uma pintura metafísica. Pelechian sabe-o, e ao longo da viagem simbólica desta sua curta-metragem documental, filma sempre com base na mesma premissa plástica: o primeiro plano da imagem é ocupado pelo negro desfocado, o fundo pela luz nítida.

É assim que o autor filma as pessoas (a preto e a branco). A sua vida (evocada pelo movimento descuidado que o comboio provoca na câmara) caracteriza-se pelo sentido de comunidade (idades, sexos, classes, raças, religiões). Cada indivíduo só é visível através da sua referência a outros indivíduos - que perfazem o seu enquadramento imprevisível e incómodo.

É assim também que ele filma as paisagens. As árvores negras, demasiado próximas do comboio em movimento, são desfocadas até se tornarem grossas e irrazoáveis pinceladas. Quando o fundo é o mar com sol poente, a intensidade plástica é tal que supera a abstracção da pintura filmada de Stan Brakhage.

Ora, a uma dada altura, o comboio entra num túnel. E aí, o movimento altera-se por completo. O travelling faz-se para a frente. O negro invade a visão. Mas vão surgindo pequenos focos luminosos que vêm do fundo do plano. Até que uma dessas luzes parece não avançar. E vai crescendo muito lentamente até, de repente, ocupar a totalidade da imagem. É a luz ao fundo do túnel.

Ou melhor dizendo, é a definição da morte: quando a luz abandona o fundo e ocupa o primeiro plano em plenitude. Tudo se torna conteúdo. Entendemos com nitidez.


VIDA
O nascimento é indefinível. E por isso, Pelechian recorre a uma pintura lírica. O seu registo de um parto é feito tão-somente de exaltação (a cor, o canto, a luz intermitente e ofuscante).

Os seus grandes-planos obsessivos do rosto da mulher a dar à luz são pintados por ténues transparências azuladas que se insinuam, frias, entre a câmara e corpo. Quando finalmente vemos o recém-nascido, o autor regista-o em contra-picado contra uma miríade de luzes pouco focadas. Parece um bebé sob um céu estrelado: e são dos mais belos planos da História do Cinema.

Dicionário 8

Os lógicos dizem que, numa língua ideal, cada nome se refere apenas a um objecto, e cada objecto tem um único nome que o designa.

Ora, desde Babel que cada coisa é nomeada de maneiras diferentes pelas várias línguas que existem. A essência de um objecto é encardida pela musicalidade do seu verbo, pela cultura que o acolhe, pelo quotidiano que o usa.

Mas como isto de Babel é uma gangrena imparável, dentro de cada língua passou a haver vários nomes para designar cada ser (e aí se acrescenta o afecto linguístico dos falantes, as suas preferências caprichosas). E mais: certas palavras têm o descaramento de viver da polissemia, parasitam mais do que um sentido, chegam a referir entes antagónicos entre si.

Pois Babel é a lógica da vida. A vida mestiça, rafeira, onde tudo se confunde com tudo, tudo deriva em tudo, onde as botas não batem com as perdigotas, onde reina a ambiguidade, a estupefacção, o absurdo. Babel é psicologia e acaso, ilusão e desilusão.

O facto da poesia ser, no fundo, intraduzível, não é um defeito que ela possui. É o seu maior trunfo, a sua mais fiel ligação à vida real, é o seu garante de universalidade.

quinta-feira, abril 12, 2007

0$00

O gratuito é o inútil com pretensões de utilidade.

No escrínio 20

Poema "Hoje há língua" de Rui Pires Cabral:


Às vezes perdemos
a maior parte do tempo
a descrer e a dormir -
chama-nos ao quarto
uma voz nocturna
e desesperada.
Mas depois ainda temos
de passar pelos correios
e é preciso comprar óleo
para as rodas do Outono.
Nem sempre entendemos
que a brancura dos comércios
é contígua à mais extrema
escuridão. Em poças
de espesso xarope
jazem pequenas criaturas
sem pele nem movimento
na coluna vertebral.
Hoje
há língua. Sentados de costas
descobrem as canelas ossudas
os anónimos ao balcão:
pediram o prato da noite
e o silêncio senta-se
e janta com eles, é o mais
destemido comensal.

Na vida, somos tanto mais ricos quanto mais coisas inúteis possuímos. Defendo que a única postura ética perante tal facto se reduz à advertência de que a riqueza material não implica riqueza espiritual. Mas a verdade é que só existe tutela assumida sobre as coisas úteis (aquelas que uma sociedade deve garantir a cada um dos seus cidadãos), ficando a opulência hipocritamente relegada para o imaginário da futilidade.

Ora, a maior parte das actividades intelectuais pretende também cingir-se à utilidade (a razão na filosofia, a verosimilhança no romance, a verdade física na ciência). A poesia, porém, construiu todo o seu edifício com base na inutilidade das suas palavras. Algumas das suas obras-primas praticamente nem têm discurso - são meras dádivas inesgotáveis. Hoje acusa-se a metáfora de ser uma decoração grosseira (quando a metáfora é o pão nosso de cada dia do imaginário), os poetas advogam a regra da contenção (porventura um recalcamento cultural derivado do medo do ridículo). A poesia quer definir-se pelo rigor da sua utilidade. E essa é uma muito legítima provocação.

No entanto, o mundo espiritual funciona ao contrário do mundo físico. Este exige um conjunto de elementos para assegurar a sua sobrevivência, e está por definição impossibilitado de se esticar até ao infinito (agora sim, podemos dizer que a maior parte das riquezas se constroem à custa das pobrezas circundantes). A inteligência, pelo contrário, só consegue melhorar esse mundo físico quando o ultrapassa em dinâmica e expectativa. A inteligência só funciona a partir do limiar do seu próprio enriquecimento. Talvez o homem tenha assim nascido para ser moderado na posse das coisas, e milionário na partilha das ideias. É tudo uma questão de economia.

Quando um poeta põe em causa a vocação inútil da poesia (que, claro está, também degenerou em imensas futilidades e insensibilidades graves), talvez encontre um território de eleição na ironia com que aborda a diferença de urgência entre o poético e o real. É o caso deste excelente poema de Rui Pires Cabral.

O lúcido autor reconhece a contiguidade que existe entre o requinte do sofrimento (pejorativamente associado ao dormir) e a pragmática do quotidiano (a necessidade de passar pelos correios). Mas tudo isto é ambíguo: dormir não passa afinal da mais simples necessidade física, enquanto que o óleo não é comprado para as rodas do carro, mas para as do Outono (da melancolia do envelhecimento). A que se refere então a brancura dos comércios e a extrema escuridão? O poeta deixa que seja o leitor a decidir consoante a sua sensibilidade.

Assim, exige-se que a poesia atinja a plenitude de um empenhamento ético. A língua tem de ser, ao mesmo tempo, alimento corpóreo e digestão intelectual (aqui, a polissemia é metafísica). Indirectamente, o poeta acusa a poesia de não ter movimento na coluna vertebral (parece-me claro que aqui está uma... metáfora). E por isso, no seio do seu imaginário urbano, rarefacto, e dado à solidão, oferece-a ao silêncio. Não porque este traduza o inefável originário, mas porque ele é simplesmente destemido (a qualidade requerida para sobreviver).

Por inversão de toda a tradição, a poesia torna-se tanto maior quanto mais útil se assume. Não é esta a minha estratégia (o simples facto de eu afirmar isto já me valeu injustos dissabores), mas reconheço-lhe todo o seu rigor.

Invulgares de Linneu 5


Oenotera Lemon Sunset

Música no coração

A poesia é uma das actividades mais frágeis que existem. Desde logo, porque é presa (demasiado) fácil do humor mercenário. E ainda porque os seus detractores fingem que não conseguem distinguir a Cristina Caras Lindas do Baudelaire.

Em compensação, a música parece inatacável (e reina com seu ceptro de ambiguidade). Pois a música faz o mesmo que a poesia, mas evita nomear os seus objectos de comoção. A música é cobarde. Cobarde não é Cervantes quando enumera aquilo que condena (os prazeres da fantasia), nem Tchékhov quando deixa as personagens falarem sobre aquilo de que ele duvida (os prazeres da utopia). Fazem música, mas dizem sobre o que versa a banda sonora.

Se alguém traduzisse a magnífica música de Bach ou Mozart, os humoristas iam ter muito, muito pano para as suas mangas.

O artista de plástico 1

Peça: As dificuldades da sedução


Processo:
1. Como base, use um azulejo em branco.
2. Sobre ele, coloque o conjunto inteiro dos pequenos paus que formam um jogo normal de mikado. A sorte deverá decidir qual o aspecto que esse caos terá.
3. No meio da confusão, coloque uma Barbie ou um Ken (de acordo com a sua orientação sexual). O boneco deverá ficar rodeado pelos pequenos paus, de modo a que a sua extracção do caos seja dificultada pelas regras do jogo.

a. Se pretender que a peça seja uma instalação, não use cola. Refaça-a em cada exposição.
b. Use cola se a sua ambição for a escultura.

quarta-feira, abril 11, 2007

Graus académicos

(...)
Ni les colombes de Lisbonne,
Ni les avions, oiseaux étudiés,
Ne faisaient aucun cas de ce fût sans colonne,
Mât à la voile déchirée,
Le pin vert.
(...)

Vitorino Nemésio

segunda-feira, abril 09, 2007

"Vampyr" - imagem

No plateau (documental)

Para a construção dos cenários do filme "Vampyr", Dreyer pediu aos seus colaboradores que fossem à caça de aranhas, que lhes preparassem uma rica dieta de insectos (de modo a tirar-lhes da cabeça eventuais ideias de emigração), e que as colocassem em locais específicos do décor.

As criaturas trabalharam, e teceram as suas teias nos sítios requeridos para os ângulos da filmagem.

As aranhas sabem mais do que os técnicos de efeitos especiais. E Dreyer fazia cinema como um amante (e não como um predador) do real.

O tempo perguntou ao tempo

Para a rodagem de "La passion de Jeanne d'Arc", Dreyer contratou uma actriz pouco conhecida (a posteriormente muito famosa Falconetti) e uma legião de actores não-profissionais, de modo a que os baixos custos com os intérpretes permitissem um maior tempo para a feitura global do filme.

(Não estou aqui a defender que os actores não façam dinheiro com os filmes. Espero que ganhem a sua vida, e que a ganhem muitíssimo bem. Mas isso nada tem a ver com a utilização do cinema como uma aposta milionária. O realizador que tenha mais desejo de liberdade do que de publicidade, deve evitar contratar os Beckhams do écran. Até porque nem sempre um actor conhecido é também um bom actor)

Orson Welles queixava-se de não ter tanto tempo para fazer um filme quanto Proust tivera para escrever o seu mega-romance. E se os filmes de Chaplin são tão precisos na técnica do seu burlesco, isso deve-se, em parte, ao facto do realizador ter a possibilidade de experimentar e aperfeiçoar os seus processos durante meses.

Não milito propriamente por um cinema pobre (é preciso ter vocação para isso; já vi filmes que tiveram de ser rodados tão depressa que o trabalho com os actores acabou por ser negligente), mas renego em absoluto a transformação da sétima arte numa manifestação de opulência financeira.

Parece-me que o importante é a gestão eficaz dos recursos de modo a que haja tempo suficiente para que todos os intervenientes na feitura do filme possam dar o melhor de si mesmos (o que implica amor ao métier, amor ao projecto em questão, capacidade de trabalho e experimentação, honestidade intelectual). Em vez de 500 filmes, que se façam 50. Mas que cada um seja assumido como um processo decisivo, uma questão de perfeição-ou-morte, que cada um traga o timbre da mais justa ambição.

É preciso que se faça cinema com o mesmo rigor com que se produz o melhor teatro.

As ironias do carácter

1. Sou demasiado preguiçoso para assumir o compromisso sério de um vício.

2. Não gosto o suficiente do convívio para me juntar a alguém só por causa do seu dinheiro.

sábado, abril 07, 2007

Páscoa

Cristo não tinha biblioteca, nem sabia de finanças. Certo.

Mas, ao contrário dos outros homens, tinha uma antena parabólica que o punha em contacto directo com a totalidade do mundo.

Descoberta no Prado


Joachim Patinir (ca. 1485-1524)

My vagabond shoes 4

Na cinemateca de Madrid (cidade onde, definitivamente, é mais fácil estar do que ser), a compra de bilhetes para as sessões dos filmes é feita numa rua estreita desviada da entrada principal do edifício, através de um buraco minúsculo e escondido na parede.

Como se estivéssemos a adquirir um produto sórdido e proibido.

Invulgares de Linneu 4


Nigela Miss Jekyll

Primeira Parte, Capítulo XLV

Cervantes é o autor menos maniqueísta que já li (o que é tanto mais extraordinário quanto a sua obra-prima tem por base uma narrativa tendencialmente esquemática).

Quando no romance se debate o problema de Quixote achar que a tosca bacia que roubou a um barbeiro é nada mais nada menos que o elmo do famigerado Mambrino, uma das personagens, certamente comovida pelo loucura do Cavaleiro da Triste Figura, sai-se com esta frase:

" (...) esta peça que aqui está diante e que este bom senhor tem nas mãos não só não é bacia de barbeiro, mas está ainda tão longe de o ser como está longe o branco do negro e a verdade da mentira; (...) " (trad. Miguel Serras Pereira)


Dito por palavras de mais ensaio e menos subtileza, o que aqui se defende é que, na prática da metáfora (no negócio inevitável entre o que o mundo nos dá e o modo como o apreendemos), se mantém sempre a distância entre os seus termos (a bacia não tem mais probabilidades de se tornar um elmo só por causa do devaneio de Quixote), mas se inverte por completo as suas posições (a bacia passa a ser perversamente considerada um elmo). A intervenção mental do homem no mundo (que é uma das suas formas de sobrevivência) pauta-se, portanto, pelo desejo de liberdade, pela recusa de aceitar os conceitos do real tal como eles lhe são impostos. Toda a aventura do Quixote se pode definir pelo intervalo irónico entre a velocidade da sua constante actividade metafórica (os moinhos que são tomados por gigantes), e a crueldade lenta de um real que não muda por obra e graça da mera fantasia. A metáfora (com mais ou menos pós-modernismo) é a arma do ser inquieto.

Se um só homem padece desse infortúnio, os outros consideram-no louco. Mas, no mesmo capítulo do romance, as personagens decidem, por comum acordo, que aquela bacia passa a ser um elmo (quando, na verdade, não o é). O Símbolo (que é sempre uma convenção arbitrária) é a forma que a sociedade encontrou para disfarçar a loucura do seu fundamento.

Primeira Parte, Capítulo XLIII

Claramente apaixonado por Cervantes, não reduzo porém o meu blogue a um único tema, porque não acredito na monogamia intelectual.

Na estalagem onde Quixote se supõe vítima de encantamentos vários (quando o que ali encanta é o encontro improvável de todo o tipo de homens e narrativas), duas moças decidem pregar uma partida ao cavaleiro andante.

Prendem-no, por uma mão, à alta fresta de um palheiro. Quixote fica em pé sobre o seu cavalo (Rocinante), tentando equilibrar-se para não cair. Mas a dada altura o bicho sai do sítio, e o homem fica pendurado no ar, a mão presa ao alto, e os pés longe do chão. Sente Dor.

Evidente alegoria. O Cavaleiro é aquele que existe em frágil equilíbrio sobre um cavalo. Se essa máquina de aceleração do andamento lhe falta, ele fica exposto àquilo que é: um ser que, por muito que se esforce, não consegue ter os pés na terra. Sente Dor.

O amor ao lar

Diz o pró ao contra: por favor, não tentes fazer isto em casa.