quinta-feira, março 15, 2007

O INACTUAL 13

"It should happen to you" - George Cukor (1954)


Esta esquecida obra de George Cukor (um dos raros cineastas que souberam, de facto, fazer comédia) é dotada de uma tripla ambição.

É, em primeiro, um filme político. No paraíso liberal do Uncle Sam, a tentação do sonho individual (a personagem de Judy Holliday quer ser famosa, pura e simplesmente) é sempre abusada pelas forças do capitalismo (ela apenas consegue transformar-se num palhaço rentável). Ou dizendo de forma menos irritante, o indivíduo é sempre o elo mais fraco, tanto à direita como à esquerda.

É ainda um filme psicanalítico. O eu pode sofrer um inchaço narcísico patológico (Gladys, a personagem em questão, não arranja melhor maneira de ser famosa do que colocar o seu nome em letras grandes num grande cartaz em Nova Iorque...). A verdadeira reconciliação do narciso consigo mesmo (com a sua grandeza verdadeira) só se dá com a constituição de uma relação sentimental com outrem.

E é, por último, um filme sobre o próprio cinema. Cukor torna-se quase brechtiano: revela as imagens captadas pela personagem do documentarista apaixonado por Gladys, faz animação gráfica, acelera a velocidade da imagem, promove repetições ao nível da montagem, etc. Claro que tudo isto é legitimado pela história, mas é uma estratégia tão insistente, que se torna óbvio que o realizador quis acusar, sublinhar, o facto de estar a fazer um filme. De forma irónica (e perversa), Cukor reflecte sobre a questão do estrelato hollywoodiano (foi ele quem fez de Holliday uma star), sobre o seu vazio e a sua possibilidade de redenção.

Por entre diversas cenas de antologia (a minha favorita é aquela em que Gladys se esquiva de um beijo que o documentarista lhe ia dar, desviando ele a boca para a sua bebida, e dizendo que aquele foi o melhor café da sua vida), Cukor encena aquilo que sempre o obcecou: a necessidade da discussão conjugal como a única forma de chegar ao amor.

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