terça-feira, março 20, 2007

O fraseado

O cineasta Carl Th. Dreyer, que era um severo crítico de todo o cinema feito com mesquinhas ambições, escreveu uma vez, a propósito de uma adaptação de Tolstoi pelo cineasta hollywoodiano Clarence Brown, a seguinte frase:

"O Conde Vronski lembra-se de Anna Karénina e olha para uma fotografia de Greta Garbo numa moldura." (tradução livre a partir do francês)

Queria com isto dizer que o trabalho do realizador, em vez de atingir os objectivos pretendidos (a materialização da famosa personagem do autor russo), tinha sido desviado para uma verdade medíocre (nem sequer era a mulher-actriz que tinha sido filmada, mas simplesmente a star Greta Garbo, em todo o seu glamour gratuito).


No capítulo XLII (Primeira Parte) do "Dom Quixote", a um dado momento Cervantes escreve:

"Recolhidas, pois, as damas em seu aposento, e acomodados os demais como menos mal puderam, Dom Quixote saiu fora da estalagem a fazer de sentinela ao castelo, segundo aquilo que prometera."
(tradução de Miguel Serras Pereira)


Na mesma frase, o cavaleiro andante abandona uma verdade não satisfatória (a estalagem) para realizar uma acção situada no plano das verdades desejadas, entrevistas, pressentidas (o castelo). O romance de Cervantes encena precisamente o drama risível que ao mesmo tempo impede e glorifica aquele que se abre ao desconhecido. E em "A Palavra", Dreyer usa planos-sequência em panorâmica (frases) num crescendo em direcção ao milagre.

O fraseado de uma melodia define-se, pois, pelo grau de aventura ao qual o músico consegue chegar.

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