terça-feira, março 27, 2007

O coleccionador 5

No filme "The passenger", de Michelangelo Antonioni, há um momento que passa quase despercebido, mas que faz a ponte entre o cinema do realizador italiano e a técnica de Alfred Hitchcock.

Já depois de começada a sua fuga comum, estão as personagens de Jack Nicholson e Maria Schneider a conversar numa esplanada, quando a câmara faz rapidíssimos movimentos para acompanhar os veículos que passam ao longe, na rua, a alta velocidade. Segue os carros que se movimentam da esquerda para a direita, e vice-versa.

Por um lado, esta hesitação visual faz nascer no espectador o receio de que, em alguma daquelas viaturas, viaje um perseguidor do casal. Ao formalismo clássico do suspense, junta-se a inovação de Antonioni (a velocidade e imprecisão do movimento). Mas ao mesmo tempo, a deriva da câmara faz eco da do protagonista, do seu mal-estar identitário, da sua hesitação existencial. Só que ao formalismo moderno da angústia, se junta a tradição de Hitchcock (a plenitude semântica da acção).

Sem comentários: