domingo, março 25, 2007

O ACTUAL 10

"Il caimano" - Nanni Moretti

Nanni Moretti é um daqueles autores (como, por exemplo, o diferentíssimo Philippe Garrell) que intuíram que a herança mítica da esquerda política, para ser vivida de forma genuína no presente, teria de passar ao modo menor.

Neste seu último filme (onde ele recorre à estratégia cervantina através da qual aquilo que se finge ridicularizar não é o que, na verdade, se ridiculariza), o problema real da personagem Berlusconi não é tanto a sua corrupção (isso também é denunciado, sem que nunca se confunda cinema com jornalismo), mas o modo maior do seu discurso e da sua atitude. A seriedade e grandiloquência constituem perigos políticos na medida em que já nada têm a ver com a vida do cidadão comum. O próprio Moretti não interpreta a figura de um realizador (aquele que torna o pensamento REAL), mas a de um actor. Pois o homem político tornou-se (quer-me parecer a mim que sempre o foi, mas isso são irritações pessoais) aquele que age (que é actor) apenas na medida em que constrói um papel, um fingimento institucional.

A história do quotidiano do produtor de filmes de série Z (o seu gosto medíocre, os irresolúveis problemas financeiros, o falhanço do casamento, o seu gosto em estar com os filhos, a obsessão com o futebol, etc.) não é uma divagação gratuita (nem desajeitada), mas o cerne do filme: é precisamente aquilo a que a política não consegue responder. Ou seja, Moretti parece querer dizer que o Caimão não merece, sequer, uma comédia.

O filme hesita, pois, entre a comédia tradicional, o onirismo felliniano e o grand guignol político (espelho das estratégias de propaganda do próprio Berlusconi). Mas tem respiração suficiente para desenvolver uma amoralidade terna e um humanismo do olhar (é com generosidade que se encena a tara sexual da vedeta, o casal de lésbicas, a insegurança da realizadora estreante).

Se o cinema já não é feito por Colombos (o produtor persegue uma caravela sobre um camião, e este adereço leva-o até uma rodagem grandiosa que é bem mais sonho do que realidade), pode ser pelo menos o sítio onde ainda podemos brincar no plateau como se fôssemos miúdos.

Apesar da modéstia (a obra define-se mais pelo rigor do tom do que pela inventividade), "Il Caimano" é um excelente filme político.

1 comentário:

aida monteiro disse...

gostei muito, muito do filme:)

abraço.