terça-feira, março 20, 2007

No plateau 9

A montagem é o istmo do plateau. Quando se diz que um realizador pensa como um montador, isso não quer dizer que ele filme de modo a facilitar o trabalho de edição, mas que ele provoca a sua agitação. A imagem é uma realidade de corpo gasoso. Sua única força é incomodar o pensamento.

Há muito que Jean-Look Spiell Bergman trabalhava com a montadora Telma Schumacher, e a relação criativa começava a padecer de rotina. Ao encenar "A Venda", um ensaio sobre a cegueira do filósofo Gil d'Imans, Jean-Look quis precisamente lançar um desafio à sua regular colaboradora.

Para isso, filmou o texto de três maneiras. Vestiu a sua actriz-fétiche, Delphyne Monreau, com roupa larga e leve, e perseguiu-a com câmara ao ombro ao longo de campos primaveris, enquanto ela dizia as palavras do pensador. Na primeira vez, deixou que a forte e regular ventania, que nesse dia se sentia, fizesse a sua mise en scène do corpo da actriz (do seu cabelo, da sua roupa, do seu equilíbrio até). Na segunda vez, como o vento era fraco e intermitente, usou uma máquina-de-vento para preencher os momentos de quietude com a sua própria sensibilidade coreográfica. E na última tentativa, usou a máquina-de-vento todo o tempo, pois a atmosfera estava em regime de calmaria. Surgiram assim três planos-sequência, onde o movimento monótono de Delphyne era desafiado pelo lirismo e pela polémica do ar em fúria.

Entregou os três planos a Telma (sem lhe confidenciar a maneira como cada um tinha sido filmado), e disse que o seu trabalho de montagem seria a mera escolha daquele plano que revelasse o teor da criatividade humana. Aquele onde o acaso fosse conformado por algum desejo de sentido. A montagem como a abolição de Deus.

Telma escolheu. O filme foi um fracasso de bilheteira.

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