sábado, março 17, 2007

No escrínio 19

Poema "O interior das rosas", de Rainer Maria Rilke, traduzido por Paulo Quintela:


Onde há para este interior
um exterior? Sobre que dor
se põe este linho?
Que céus se espelham
no seio do lago
destas rosas abertas,
descuidadas? Olha:
como jazem soltas no solto,
como se não pudesse
mão tremente desfolhá-las.
Mal se podem suster
a si próprias; muitas deixaram-se
encher de mais, e trasbordam
de espaço interior
para os dias, que cada vez
mais plenos se fecham,
até que todo o Verão se faz
uma sala, uma sala num sonho.


A mais bela definição de eternidade: estas rosas que jazem soltas, como se não pudesse mão tremente desfolhá-las. Pois ser eterno não é ser imortal, mas ter a vertigem da imortalidade.

Este interior das rosas, tão uterino (noutro verso fala-se de seio), a plenitude do sonho e de uma beleza que triunfou sobre a sordidez, tem exterior. É precisamente o caso da dor (que se transforma em mesa para a toalha de linho com que a rosa a enobrece). E também o caso dos céus (que a rosa reflecte de forma visionária, pintando-os da cor-de-si-mesma, de vermelho, branco, amarelo), morada divina com a qual o poeta sempre foi você-cá-você-lá.

Os adjectivos são escolhidos a dedo: descuidadas, soltas (infância, inocência e liberdade). Eles trazem o afecto que obriga as rosas a transbordarem (o poema tem a ambição do contágio), e a levarem o seu Ser sem mácula (ser no ser, solto no solto) a tudo aquilo que é exterior (humano, cronologia das estações). A mesa da dor superada pode então ser posta na sala do Verão (a melhor estação torna-se fixa, como uma casa). O Homem que, invadido pelo Fechado, atingiu o Aberto, torna-se equivalente à Poesia.

Claro, as rosas são efémeras...

1 comentário:

dora disse...

sem análise, guardo
Onde há para este interior um exterior?
para me dizer.