sábado, março 17, 2007

No escrínio 18

Poema de Rainer Maria Rilke, traduzido por Paulo Quintela:


Amo as horas nocturnas do meu ser
em que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.

Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto com a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino que foi
(em volta do qual se apertam suas raízes quentes)
perdeu em tristezas e canções.



As palavras mais importantes de um poema são aquelas que se mostram aparentemente inúteis para o seu discurso. É o caso, aqui, de cartas, lenda e quente.

O poeta evoca uma disposição do Ser (horas nocturnas, chama-lhes, não porque se dêem necessariamente à noite, mas porque dela retiram a sua essência) que permite que os sentidos se aprofundem. Aprofundar quer dizer, então, conseguir destrinçar as duas vidas: a vida presa ao tempo (os dias, ainda por cima precedidos por uma possessão) e aquela outra vida que não é sem tempo, mas que é mais vasta porque quem a vive perde a noção do tempo. Assim, aquilo que na banalidade cronológica gera tristezas e canções (que dizem de mais), é na atemporalidade transformado em madureza (que não exclui o sofrimento, mas o integra de forma distanciada) e rumores. Rilke, aliás, sempre soube que o homem toma consciência do seu sonho quando sai fora de si. Quando, por exemplo, se torna árvore (atingindo a plenitude do fruto ou a ausência de verbo do pássaro).

No entanto, o menino evocado estaria, de facto, morto, se o texto o não rodeasse com as palavras-inúteis que geram, para quem lê, o mencionado aprofundamento do sentidos. As cartas não só trazem uma mitologia (de revelações, amores, testamentos), como a sensualidade dos velhos papéis amarelos, da tinta de difícil domesticação, e acima de tudo do doce e paciente trabalho da escrita (enquanto caligrafia e possibilidade de sentido). Trazem também o conceito de distância (espacial e temporal). A palavra lenda nem precisa de ser exposta, de tal modo a sua aura transtorna e liberta qualquer leitor. E por fim, ponto de chegada do crescendo de vitalidade, o calor que arrasta consigo o afecto, o Verão, ou o fogo regenerador.

As palavras-inúteis são tumores. Não descrevem o conteúdo. Fazem-no REAL.

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