segunda-feira, março 05, 2007

No escrínio 17

Poema "Divisão de orações" de Gastão Cruz:

Creio afinal que era um prazer ouvi-las
como peixes no rio do poema
fora dele saltar e mergulhar

novamente no leito que fluía
ondulante e diverso, os ques principalmente
descobrir

que espécie de oração introduziam:
causais comparativas integrantes
relativas finais consecutivas

concessivas, num ponto da estrofe
começavam e por
vezes somente na seguinte

o seu sentido concluíam sendo
preciso persegui-lo, no fundo o que fazia
e faz, talvez em vão, a poesia; e tudo era

o jogo real dos dias
falar nadar correr olhar os corpos
o próprio e os alheios

na frescura do sol ou no calor da
casa, esse um tempo feliz
e belo se algum tempo pode sê-lo.


Gastão Cruz é um poeta contido, labora a emoção de modo oblíquo, calibrando a sua inclinação reflexiva com a omnipresença do corpo e de uma sensualidade em parte herdada das paisagens da sua infância algarvia. O seu último livro ("A moeda do tempo", 2006) contém textos que me parecem particularmente conseguidos, como "A forma do amor", "Saturno", "Coisas contemporâneas", "Rua da marinha" ou "Linha sobre a Ásia".

No caso do poema aqui partilhado, o autor relembra a idade de todos os porquês. Mas como já não está nessa idade, ainda que nela permaneça à distância da memória, é forçoso que a veja como a idade dos ques. Afinal, a sua vida adulta terá vagueado pelo espectro completo da experiência humana (que se pode decompor em momentos causais, comparativos, integrantes, etc.), mas só agora o trabalho de análise (dos poemas, da vida) une presente e passado numa noção de prazer. O que antes era interrogação adquiriu serenidade.

O rio flui. Mas o nosso devir existencial não é liquído, antes se fragmenta por instantes. Perseguir o sentido da vida confunde-se por isso com a técnica do enjambement, com a tentativa de unificar num sentido-fleuve aquilo que talvez nem sentido tenha.

Assim, o poeta termina celebrando a beleza da infância e da juventude. Falar nadar correr olhar os corpos: esse tempo era belo (se algum tempo pode sê-lo) porque tudo isso cabia num verso único.

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