terça-feira, março 20, 2007

No divã

1. Se a poesia (escrita) não me basta como área exclusiva de criatividade, é porque na poesia (escrita) não tenho acesso a imagens (literais) de corpos (humanos ou nem tanto). Mas não tenho ilusões: tudo o que eu faça (com imagens de corpos) será ainda e sempre poesia.

2. Determinado a nunca escrever a marquesa saiu às cinco horas, inventei para mim uma prosa de estilo luxuriante. No entanto, afecto à escrita fragmentária, à miniatura, ao aforismo, à obra incompleta, circunscrevo essa luxúria a pequenas unidades de forma e sentido (tentando sempre a máxima concentração). Costumo dizer a mim mesmo (jocosamente) que a minha grande influência literária é a açoriana Ilha de S. Miguel.

3. Um dos clichés apregoados pelo comunismo (chamemos as coisas pelos nomes) é aquele que defende que não se pode falar de flores e pássaros, por causa do sofrimento (pungente e urgente) dos humanos oprimidos. Para além da injustiça assim cometida contra as borboletas, as árvores, os rios, as nuvens, os crepúsculos e companhia ilimitada, devo dizer que me oponho a tal regra (aparentemente) moral. Pratico uma poesia cuja a ambição é, mais ainda do que a alegria ou o fascínio, o contágio do leitor. Assim sendo, o objectivo último dessa estratégia é evitar que o leitor, ao sentir a degradação que o real provoca na alegria inconsútil do poema, não consiga ser feliz à toa. Aliás, só existe desespero na medida em que convivemos com flores e pássaros (que aqui são metonímia). E o homem moral que despreza (ou finge desprezar) as flores e os pássaros (que aqui são metáfora) é mais puritano do que genuíno.

4. Se escrevo pequenos ensaios em torno de alguns poemas (a série "No escrínio" deste blog), não é porque queira encerrar o horizonte de cada texto numa interpretação ou numa pirueta de pensamento. Trata-se (para além de uma vontade de partilha clara e esclarecida) de tentar extrair do poema aquilo que nele é germe de continuação poética. O ensaio agarra o testemunho que o autor lhe passa, e prolonga a sua inquietação.

5. Um divã é um cancioneiro oriental.

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