terça-feira, março 13, 2007

Crónica da neve

É sabido que Deus pode fazer o que quiser. Pois faça o que fizer, não há a menor prova de que Ele tenha feito o que fez. A proximidade verbal entre o ânus e o ónus da prova mostra logo quão frágil é a situação daquele que leva com os diversos sentidos da sua graça.

Noé era um menino como muitos outros. Mas como poucos outros vivia no interior e no sul. Combinação perigosa que fecha quem a vive na ausência de neve e de mar. Noé nunca tinha visto neve (o que era uma saudade vertical). Noé nunca tinha visto o mar (e isso já era horizontal ignorância).

E Deus disse-lhe: Escolhe, fiel meu, um dos dois modos de viver. E eu te premiarei de acordo com as tuas obras.

Conforme foi crescendo, Noé foi-se tornando um homem vertical. Viveu de acordo com os mandamentos. E foi de tal modo um homem moral, que teria sido capaz de conservar todos os princípios éticos dentro da arca do seu frio coração, mesmo que todo o resto da humanidade entrasse em dilúvio de crueldade.

Um dia, Noé viu a neve cair das nuvens. E como a neve era rara no sul e no interior, Noé pensou que era um milagre destinado a suprir a sua velha saudade.

Num outro dia, Noé viu o mar cair das nuvens. E como era ignorante, não sabia que o mar lhe era especificamente dirigido.

De qualquer modo, nem pegadas Ele deixou.

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