terça-feira, março 27, 2007

O coleccionador 5

No filme "The passenger", de Michelangelo Antonioni, há um momento que passa quase despercebido, mas que faz a ponte entre o cinema do realizador italiano e a técnica de Alfred Hitchcock.

Já depois de começada a sua fuga comum, estão as personagens de Jack Nicholson e Maria Schneider a conversar numa esplanada, quando a câmara faz rapidíssimos movimentos para acompanhar os veículos que passam ao longe, na rua, a alta velocidade. Segue os carros que se movimentam da esquerda para a direita, e vice-versa.

Por um lado, esta hesitação visual faz nascer no espectador o receio de que, em alguma daquelas viaturas, viaje um perseguidor do casal. Ao formalismo clássico do suspense, junta-se a inovação de Antonioni (a velocidade e imprecisão do movimento). Mas ao mesmo tempo, a deriva da câmara faz eco da do protagonista, do seu mal-estar identitário, da sua hesitação existencial. Só que ao formalismo moderno da angústia, se junta a tradição de Hitchcock (a plenitude semântica da acção).

domingo, março 25, 2007

"Il caimano" - imagem

O ACTUAL 10

"Il caimano" - Nanni Moretti

Nanni Moretti é um daqueles autores (como, por exemplo, o diferentíssimo Philippe Garrell) que intuíram que a herança mítica da esquerda política, para ser vivida de forma genuína no presente, teria de passar ao modo menor.

Neste seu último filme (onde ele recorre à estratégia cervantina através da qual aquilo que se finge ridicularizar não é o que, na verdade, se ridiculariza), o problema real da personagem Berlusconi não é tanto a sua corrupção (isso também é denunciado, sem que nunca se confunda cinema com jornalismo), mas o modo maior do seu discurso e da sua atitude. A seriedade e grandiloquência constituem perigos políticos na medida em que já nada têm a ver com a vida do cidadão comum. O próprio Moretti não interpreta a figura de um realizador (aquele que torna o pensamento REAL), mas a de um actor. Pois o homem político tornou-se (quer-me parecer a mim que sempre o foi, mas isso são irritações pessoais) aquele que age (que é actor) apenas na medida em que constrói um papel, um fingimento institucional.

A história do quotidiano do produtor de filmes de série Z (o seu gosto medíocre, os irresolúveis problemas financeiros, o falhanço do casamento, o seu gosto em estar com os filhos, a obsessão com o futebol, etc.) não é uma divagação gratuita (nem desajeitada), mas o cerne do filme: é precisamente aquilo a que a política não consegue responder. Ou seja, Moretti parece querer dizer que o Caimão não merece, sequer, uma comédia.

O filme hesita, pois, entre a comédia tradicional, o onirismo felliniano e o grand guignol político (espelho das estratégias de propaganda do próprio Berlusconi). Mas tem respiração suficiente para desenvolver uma amoralidade terna e um humanismo do olhar (é com generosidade que se encena a tara sexual da vedeta, o casal de lésbicas, a insegurança da realizadora estreante).

Se o cinema já não é feito por Colombos (o produtor persegue uma caravela sobre um camião, e este adereço leva-o até uma rodagem grandiosa que é bem mais sonho do que realidade), pode ser pelo menos o sítio onde ainda podemos brincar no plateau como se fôssemos miúdos.

Apesar da modéstia (a obra define-se mais pelo rigor do tom do que pela inventividade), "Il Caimano" é um excelente filme político.

Horror aos apertos

Nenhum dos muitos botões, que a leitura ou a recepção de um espectáculo accionam no meu pensamento, tem grande prazer em se enfiar na casa da verosimilhança.

Não penso que seja um defeito crítico. Eu é que não espero grande verosimilhança da vida.

sexta-feira, março 23, 2007

Boas notícias

América:

O cantor Justin Timberlake não recebeu uma distinção do Senado de Memphis (seu estado natal) para a qual estava indigitado, porque alguns políticos republicanos o consideraram demasiado sexy para poder ser contemplado com tal honraria.


Maior distinção não lhe poderiam ter feito.

quarta-feira, março 21, 2007

Confissão 19


Nas narrativas antigas, o momento que mais me preenche é sempre aquele em que o vate (o aedo, o trovador) pega num instrumento que não conheço, e com acompanhamento de uma música desconhecida, canta um poema ao qual não tenho acesso.

É a imaginação em puro-sangue.

(imagem do poeta Sayat Nova)

Invulgares de Linneu 2


Gerânio Lady Moore

terça-feira, março 20, 2007

Dicionário 7

O plural de couve-flor: couves-flores.

A correcção gramatical despreza a metáfora? Serão couves que também são flores (dois objectos hifenizados a partir das suas ontologias distintas), ou couves reunidas (harmonizadas, superadas, unificadas) em torno do conceito de flor?


Proposta: o plural de couve-flor: couves-flor.

O fraseado

O cineasta Carl Th. Dreyer, que era um severo crítico de todo o cinema feito com mesquinhas ambições, escreveu uma vez, a propósito de uma adaptação de Tolstoi pelo cineasta hollywoodiano Clarence Brown, a seguinte frase:

"O Conde Vronski lembra-se de Anna Karénina e olha para uma fotografia de Greta Garbo numa moldura." (tradução livre a partir do francês)

Queria com isto dizer que o trabalho do realizador, em vez de atingir os objectivos pretendidos (a materialização da famosa personagem do autor russo), tinha sido desviado para uma verdade medíocre (nem sequer era a mulher-actriz que tinha sido filmada, mas simplesmente a star Greta Garbo, em todo o seu glamour gratuito).


No capítulo XLII (Primeira Parte) do "Dom Quixote", a um dado momento Cervantes escreve:

"Recolhidas, pois, as damas em seu aposento, e acomodados os demais como menos mal puderam, Dom Quixote saiu fora da estalagem a fazer de sentinela ao castelo, segundo aquilo que prometera."
(tradução de Miguel Serras Pereira)


Na mesma frase, o cavaleiro andante abandona uma verdade não satisfatória (a estalagem) para realizar uma acção situada no plano das verdades desejadas, entrevistas, pressentidas (o castelo). O romance de Cervantes encena precisamente o drama risível que ao mesmo tempo impede e glorifica aquele que se abre ao desconhecido. E em "A Palavra", Dreyer usa planos-sequência em panorâmica (frases) num crescendo em direcção ao milagre.

O fraseado de uma melodia define-se, pois, pelo grau de aventura ao qual o músico consegue chegar.

No plateau 9

A montagem é o istmo do plateau. Quando se diz que um realizador pensa como um montador, isso não quer dizer que ele filme de modo a facilitar o trabalho de edição, mas que ele provoca a sua agitação. A imagem é uma realidade de corpo gasoso. Sua única força é incomodar o pensamento.

Há muito que Jean-Look Spiell Bergman trabalhava com a montadora Telma Schumacher, e a relação criativa começava a padecer de rotina. Ao encenar "A Venda", um ensaio sobre a cegueira do filósofo Gil d'Imans, Jean-Look quis precisamente lançar um desafio à sua regular colaboradora.

Para isso, filmou o texto de três maneiras. Vestiu a sua actriz-fétiche, Delphyne Monreau, com roupa larga e leve, e perseguiu-a com câmara ao ombro ao longo de campos primaveris, enquanto ela dizia as palavras do pensador. Na primeira vez, deixou que a forte e regular ventania, que nesse dia se sentia, fizesse a sua mise en scène do corpo da actriz (do seu cabelo, da sua roupa, do seu equilíbrio até). Na segunda vez, como o vento era fraco e intermitente, usou uma máquina-de-vento para preencher os momentos de quietude com a sua própria sensibilidade coreográfica. E na última tentativa, usou a máquina-de-vento todo o tempo, pois a atmosfera estava em regime de calmaria. Surgiram assim três planos-sequência, onde o movimento monótono de Delphyne era desafiado pelo lirismo e pela polémica do ar em fúria.

Entregou os três planos a Telma (sem lhe confidenciar a maneira como cada um tinha sido filmado), e disse que o seu trabalho de montagem seria a mera escolha daquele plano que revelasse o teor da criatividade humana. Aquele onde o acaso fosse conformado por algum desejo de sentido. A montagem como a abolição de Deus.

Telma escolheu. O filme foi um fracasso de bilheteira.

No divã

1. Se a poesia (escrita) não me basta como área exclusiva de criatividade, é porque na poesia (escrita) não tenho acesso a imagens (literais) de corpos (humanos ou nem tanto). Mas não tenho ilusões: tudo o que eu faça (com imagens de corpos) será ainda e sempre poesia.

2. Determinado a nunca escrever a marquesa saiu às cinco horas, inventei para mim uma prosa de estilo luxuriante. No entanto, afecto à escrita fragmentária, à miniatura, ao aforismo, à obra incompleta, circunscrevo essa luxúria a pequenas unidades de forma e sentido (tentando sempre a máxima concentração). Costumo dizer a mim mesmo (jocosamente) que a minha grande influência literária é a açoriana Ilha de S. Miguel.

3. Um dos clichés apregoados pelo comunismo (chamemos as coisas pelos nomes) é aquele que defende que não se pode falar de flores e pássaros, por causa do sofrimento (pungente e urgente) dos humanos oprimidos. Para além da injustiça assim cometida contra as borboletas, as árvores, os rios, as nuvens, os crepúsculos e companhia ilimitada, devo dizer que me oponho a tal regra (aparentemente) moral. Pratico uma poesia cuja a ambição é, mais ainda do que a alegria ou o fascínio, o contágio do leitor. Assim sendo, o objectivo último dessa estratégia é evitar que o leitor, ao sentir a degradação que o real provoca na alegria inconsútil do poema, não consiga ser feliz à toa. Aliás, só existe desespero na medida em que convivemos com flores e pássaros (que aqui são metonímia). E o homem moral que despreza (ou finge desprezar) as flores e os pássaros (que aqui são metáfora) é mais puritano do que genuíno.

4. Se escrevo pequenos ensaios em torno de alguns poemas (a série "No escrínio" deste blog), não é porque queira encerrar o horizonte de cada texto numa interpretação ou numa pirueta de pensamento. Trata-se (para além de uma vontade de partilha clara e esclarecida) de tentar extrair do poema aquilo que nele é germe de continuação poética. O ensaio agarra o testemunho que o autor lhe passa, e prolonga a sua inquietação.

5. Um divã é um cancioneiro oriental.

sábado, março 17, 2007

Galeria 22


Rainer Maria Rilke

No escrínio 19

Poema "O interior das rosas", de Rainer Maria Rilke, traduzido por Paulo Quintela:


Onde há para este interior
um exterior? Sobre que dor
se põe este linho?
Que céus se espelham
no seio do lago
destas rosas abertas,
descuidadas? Olha:
como jazem soltas no solto,
como se não pudesse
mão tremente desfolhá-las.
Mal se podem suster
a si próprias; muitas deixaram-se
encher de mais, e trasbordam
de espaço interior
para os dias, que cada vez
mais plenos se fecham,
até que todo o Verão se faz
uma sala, uma sala num sonho.


A mais bela definição de eternidade: estas rosas que jazem soltas, como se não pudesse mão tremente desfolhá-las. Pois ser eterno não é ser imortal, mas ter a vertigem da imortalidade.

Este interior das rosas, tão uterino (noutro verso fala-se de seio), a plenitude do sonho e de uma beleza que triunfou sobre a sordidez, tem exterior. É precisamente o caso da dor (que se transforma em mesa para a toalha de linho com que a rosa a enobrece). E também o caso dos céus (que a rosa reflecte de forma visionária, pintando-os da cor-de-si-mesma, de vermelho, branco, amarelo), morada divina com a qual o poeta sempre foi você-cá-você-lá.

Os adjectivos são escolhidos a dedo: descuidadas, soltas (infância, inocência e liberdade). Eles trazem o afecto que obriga as rosas a transbordarem (o poema tem a ambição do contágio), e a levarem o seu Ser sem mácula (ser no ser, solto no solto) a tudo aquilo que é exterior (humano, cronologia das estações). A mesa da dor superada pode então ser posta na sala do Verão (a melhor estação torna-se fixa, como uma casa). O Homem que, invadido pelo Fechado, atingiu o Aberto, torna-se equivalente à Poesia.

Claro, as rosas são efémeras...

Invulgares de Linneu 1


Rosa Joseph's Coat

No escrínio 18

Poema de Rainer Maria Rilke, traduzido por Paulo Quintela:


Amo as horas nocturnas do meu ser
em que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.

Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto com a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino que foi
(em volta do qual se apertam suas raízes quentes)
perdeu em tristezas e canções.



As palavras mais importantes de um poema são aquelas que se mostram aparentemente inúteis para o seu discurso. É o caso, aqui, de cartas, lenda e quente.

O poeta evoca uma disposição do Ser (horas nocturnas, chama-lhes, não porque se dêem necessariamente à noite, mas porque dela retiram a sua essência) que permite que os sentidos se aprofundem. Aprofundar quer dizer, então, conseguir destrinçar as duas vidas: a vida presa ao tempo (os dias, ainda por cima precedidos por uma possessão) e aquela outra vida que não é sem tempo, mas que é mais vasta porque quem a vive perde a noção do tempo. Assim, aquilo que na banalidade cronológica gera tristezas e canções (que dizem de mais), é na atemporalidade transformado em madureza (que não exclui o sofrimento, mas o integra de forma distanciada) e rumores. Rilke, aliás, sempre soube que o homem toma consciência do seu sonho quando sai fora de si. Quando, por exemplo, se torna árvore (atingindo a plenitude do fruto ou a ausência de verbo do pássaro).

No entanto, o menino evocado estaria, de facto, morto, se o texto o não rodeasse com as palavras-inúteis que geram, para quem lê, o mencionado aprofundamento do sentidos. As cartas não só trazem uma mitologia (de revelações, amores, testamentos), como a sensualidade dos velhos papéis amarelos, da tinta de difícil domesticação, e acima de tudo do doce e paciente trabalho da escrita (enquanto caligrafia e possibilidade de sentido). Trazem também o conceito de distância (espacial e temporal). A palavra lenda nem precisa de ser exposta, de tal modo a sua aura transtorna e liberta qualquer leitor. E por fim, ponto de chegada do crescendo de vitalidade, o calor que arrasta consigo o afecto, o Verão, ou o fogo regenerador.

As palavras-inúteis são tumores. Não descrevem o conteúdo. Fazem-no REAL.

O fantástico

O fantástico é o meio pelo qual alguém nos faz ver aquilo que ainda não conseguimos ver. Seja por défice tecnológico (como mostrar imagens da superfície lunar antes da invenção do telescópio?), por razões científicas (os filósofos gregos ensinaram que havia verdades que podiam ser achadas pela lógica, antes mesmo da experiência as poder confirmar), ou por intuições da fé (a crença em Deus para quem a leva a sério, ou o poema que descreve uma pessoa amada a quem nunca amou).

Há por isso, no fantástico, uma estrutura dúplice. Por um lado, a materialização visionária que alimenta a fome de conhecimento e de futuro. Mas por outro lado, a inevitável evidência de que a imagem de fantasia é sempre virtual, imperfeita, não tem consistência nem garante de autenticidade.

Quando a fantasia é dada com excesso de verosimilhança (de corporalidade), não se perde apenas o seu lirismo encantatório. Perde-se, acima de tudo, a própria função metafísica do fantástico.

Talvez no contexto

No trailer do filme "Venus", Peter O'Toole abre a sua veneranda boca para nos reconfortar com a ideia de que, para um homem, aquilo que de mais belo ele vê na vida é um corpo feminino, enquanto que para uma mulher, o seu êxtase de beleza surge com o nascimento do primeiro filho.

De uma penada só, o venerável argumentista consegue menosprezar a homossexualidade, a paternidade, a sexualidade feminina, e o direito da mulher a não ser mãe.

Questão de cidadania: ninguém me apanha a comprar bilhete para este contexto.

quinta-feira, março 15, 2007

"It should happen to you" - imagem

O INACTUAL 13

"It should happen to you" - George Cukor (1954)


Esta esquecida obra de George Cukor (um dos raros cineastas que souberam, de facto, fazer comédia) é dotada de uma tripla ambição.

É, em primeiro, um filme político. No paraíso liberal do Uncle Sam, a tentação do sonho individual (a personagem de Judy Holliday quer ser famosa, pura e simplesmente) é sempre abusada pelas forças do capitalismo (ela apenas consegue transformar-se num palhaço rentável). Ou dizendo de forma menos irritante, o indivíduo é sempre o elo mais fraco, tanto à direita como à esquerda.

É ainda um filme psicanalítico. O eu pode sofrer um inchaço narcísico patológico (Gladys, a personagem em questão, não arranja melhor maneira de ser famosa do que colocar o seu nome em letras grandes num grande cartaz em Nova Iorque...). A verdadeira reconciliação do narciso consigo mesmo (com a sua grandeza verdadeira) só se dá com a constituição de uma relação sentimental com outrem.

E é, por último, um filme sobre o próprio cinema. Cukor torna-se quase brechtiano: revela as imagens captadas pela personagem do documentarista apaixonado por Gladys, faz animação gráfica, acelera a velocidade da imagem, promove repetições ao nível da montagem, etc. Claro que tudo isto é legitimado pela história, mas é uma estratégia tão insistente, que se torna óbvio que o realizador quis acusar, sublinhar, o facto de estar a fazer um filme. De forma irónica (e perversa), Cukor reflecte sobre a questão do estrelato hollywoodiano (foi ele quem fez de Holliday uma star), sobre o seu vazio e a sua possibilidade de redenção.

Por entre diversas cenas de antologia (a minha favorita é aquela em que Gladys se esquiva de um beijo que o documentarista lhe ia dar, desviando ele a boca para a sua bebida, e dizendo que aquele foi o melhor café da sua vida), Cukor encena aquilo que sempre o obcecou: a necessidade da discussão conjugal como a única forma de chegar ao amor.

Bagatelevisivas

1. O filme "Some came running", de Vincente Minnelli, passa inúmeras vezes no canal TCM. Para além da estranha sorte desse sucesso de exibição, o que me intriga é que, quando eu estou entretido no meu zapping ocioso e desdenhoso, encontro sempre o filme no momento em que a personagem de Frank Sinatra mostra o seu dactiloscrito inédito à professora de inglês por quem está apaixonado. Sempre, sempre, sempre a mesma cena. Como se fosse um sonho recorrente que precisasse de interpretação.

2. A SIC Notícias tem uma das auto-propagandas mais ridículas que alguma vez me lembro de ter visto em televisão.

3. No programa francês "Le bateau livre" (transmitido na TV5), falou-se de um estranho personagem (real) que, ao longo da sua vida, se converteu sucessivamente ao protestantismo, ao estalinismo, ao anti-estalinismo, ao ecologismo, ao terceiro-mundismo, ao islamismo, e por fim se tornou uma das inspirações da actual tese de negação do Holocausto nazi por parte do governo iraniano. Toca a ler os heterónimos do Pessoa, para perceber o que é a coerência.

terça-feira, março 13, 2007

A passagem do tempo


Este blog já falou o suficiente sobre neve.
E como não tem a oriental (pa)ciência do tempo, vai passar bruscamente para um espírito de primavera.

O virtual não está imune ao real, mas à velocidade do real.

Crónica da neve

É sabido que Deus pode fazer o que quiser. Pois faça o que fizer, não há a menor prova de que Ele tenha feito o que fez. A proximidade verbal entre o ânus e o ónus da prova mostra logo quão frágil é a situação daquele que leva com os diversos sentidos da sua graça.

Noé era um menino como muitos outros. Mas como poucos outros vivia no interior e no sul. Combinação perigosa que fecha quem a vive na ausência de neve e de mar. Noé nunca tinha visto neve (o que era uma saudade vertical). Noé nunca tinha visto o mar (e isso já era horizontal ignorância).

E Deus disse-lhe: Escolhe, fiel meu, um dos dois modos de viver. E eu te premiarei de acordo com as tuas obras.

Conforme foi crescendo, Noé foi-se tornando um homem vertical. Viveu de acordo com os mandamentos. E foi de tal modo um homem moral, que teria sido capaz de conservar todos os princípios éticos dentro da arca do seu frio coração, mesmo que todo o resto da humanidade entrasse em dilúvio de crueldade.

Um dia, Noé viu a neve cair das nuvens. E como a neve era rara no sul e no interior, Noé pensou que era um milagre destinado a suprir a sua velha saudade.

Num outro dia, Noé viu o mar cair das nuvens. E como era ignorante, não sabia que o mar lhe era especificamente dirigido.

De qualquer modo, nem pegadas Ele deixou.

Da crueldade

Um dos aspectos mais estimulantes da série britânica "The office" (uma das poucas desventuras televisivas a que não me importei de me submeter) é a inacreditável crueldade com que, de episódio para episódio, o personagem principal (interpretado por R. Gervais) vai sendo tratado. Desde o simples desconforto causado pela sua presença até ao seu brutal despedimento e à exposição ao mais humilhante ridículo, tudo o espectador é levado a assistir com inconfesso prazer. Não quer isto dizer que os fazedores de "The office" sejam apoiantes do sadismo. Agora, o que eles levam até ao fim é aquela máxima que diz que cada um tem aquilo que merece, o que em si mesmo é uma ilusão, mas consegue despertar o instinto de raiva que cada um de nós possui.

O cinema está cheio de histórias de agressividade. Cada uma menos credível do que a anterior. A crueldade da sétima arte é quase sempre obscena, gratuita, exibicionista, coisa de geeks emocionais. Lembro-me de um único filme que conseguiu desenvolver uma poética da crueldade, e esse filme é o inclassificável "Il bidone" ("O conto do vigário") de Federico Fellini. Objecto perigoso, sem paliativos, capaz de suscitar o que de mais maldito existe em nós.

E por isso festejo a coragem de Bénard da Costa por o ter considerado um dos 50 mais belos filmes de sempre.

Mais-que-ciência

No PÚBLICO de domingo, 11 de Março:

Os tumores são conjuntos de células que se esqueceram de morrer.

domingo, março 11, 2007

:

Escrever é passar de um ponto a outro ponto:








A ficção traça uma linha _________ de união

A poesia faz a travessia de barco sobre o branco do papel



O primeiro sentido

Uma das dificuldades que um ateu experimenta na sua relação com o pensamento religioso é a compreensão da figura do milagre.

Como já sabemos que tudo o que aconteceu in illo tempore (e agora já não acontece), se resume sempre à categoria da lenda (e descamba em mito), e como ninguém no seu perfeito juízo pode imaginar Cristo multiplicando pães com a assistência técnica de George Lucas (o investimento nos efeitos especiais parece-me, de resto, uma das causas da decadência onírica do cinema), pressinto que a missão do teólogo contemporâneo deveria também passar pela tentativa de pensar o significado daquilo a que se convencionou chamar o milagre. E não vale simplificar dizendo que é uma metáfora.

É claro que temos sempre "Ordet" ("A Palavra") de Dreyer.

A hora da verdade

"O sonho criador", de Maria Zambrano, é um livro fulgurante. Basicamente, a autora teoriza em torno daqueles momentos da vigília que são formalmente análogos ao sonho (momentos de contacto com a atemporalidade do Ser), e que por isso mesmo permitem uma espécie de despertar metafísico (um salto da consciência que é indissociável da palavra). De despertar em despertar, o homem joga então a sua liberdade de modo a cumprir, ou não, o argumento da sua vida (aquilo para que ela tende como se fosse um destino).

Zambrano defende que cada despertar é um momento de transcendência. Mas a mim quer-me parecer que a grande figura simbólica por trás desta conceptualização é nada menos do que a morte. Ou seja, aquele último despertar em que descobrimos que a vida afinal era sonho, ou pelo contrário, em que entramos no sonho definitivo (a autora fala muito de nascer).

Como cada livro tem também um destino, apetece-me pensar que, cada um dos leitores de "O sonho criador", no momento derradeiro da sua vida, descobrirá por fim o sentido daquilo que leu. Pois se houver nem que seja um resquício de Além, o leitor saberá que leu um livro de filosofia. Mas se nada houver, e o fim for mesmo o fim, então o leitor não saberá que leu um livro de poesia.

De resto, é o que sempre acontece com a filosofia e com a poesia.

Crítica da crítica

1. Um caso de fé cega, esse, o dos críticos que acreditam em blockbusters com alma. Pede-se então coerência: o desprezo assumido por tais corpos fílmicos.

2. Dizem os críticos que, de um filme de entretenimento, não vem mal ao mundo. Ora bolas, tanto neurónio gasto, tanto suor, tantas horas de trabalho, dinheiro, conflitos... e depois disso tudo, não resulta nem um bocadinho de Mal? Que tédio.

Tentações

Este blog esteve para começar a escrever os nomes dos escritores a que se vai referindo, precedidos pela sua situação exacta perante os prémios literários mais relevantes. Assim, Saramago seria sempre referido como nobel award winner, enquanto Lobo Antunes se ficaria por um modesto nobel award nominee.

Mas este blogger, que é super-cota, e tem ego-chato, não o deixou.

quinta-feira, março 08, 2007

No plateau 8



Jean-Look Spiell Bergman queria que a câmara não tivesse apenas a função de filmar.

Em colaboração com Mel Luckàs, começou a acoplar engenhocas simples a cada um dos seus aparelhos. Poderia ser uma bisnaga subtilíssima, uma chaminé, uma ventoinha de trazer por casa. Para além de filmar, a câmara passaria a também humedecer o filmado, passaria a fazer sinais de fumo (o realizador deve ser o indígena do seu filme), a agitar os materiais leves. Tomaria para si o objectivo de intervir na vida.

Agora, Jean-Look queria filmar a neve a derreter. E por isso tinha montado um aquecedor potente na sua câmara digital. O filme era apenas isso: a câmara a captar um terreno nevado, o aquecedor a apressar loucamente o trabalho do tempo, e as palavras de um texto dramático de Segismundus Globovitch B., que dissertava sobre a possibilidade do ascetismo.

Era grande a excitação da equipa. Quanto tempo seria necessário para que o real acontecesse? O que pode uma câmara fazer ao estado químico do mundo?

Quando a neve derreteu (ao fim de várias horas), a frustração foi completa: sob o manto rigorosamente branco, estava escondido um tesouro antigo, esquecido, opulento.

(fotografia de Abbas Kiarostami)

Tomar partido

A transcendência é apenas a metade oculta da imanência.



Sublime ironia

Pois tudo o que é especificamente humano se perde à medida que vai ganhando a perfeição, que se cumpre e revela ao extinguir-se.

Maria Zambrano (tradução de Maria João Neves)

segunda-feira, março 05, 2007

No comment


(fotografia de Abbas Kiarostami)

No escrínio 17

Poema "Divisão de orações" de Gastão Cruz:

Creio afinal que era um prazer ouvi-las
como peixes no rio do poema
fora dele saltar e mergulhar

novamente no leito que fluía
ondulante e diverso, os ques principalmente
descobrir

que espécie de oração introduziam:
causais comparativas integrantes
relativas finais consecutivas

concessivas, num ponto da estrofe
começavam e por
vezes somente na seguinte

o seu sentido concluíam sendo
preciso persegui-lo, no fundo o que fazia
e faz, talvez em vão, a poesia; e tudo era

o jogo real dos dias
falar nadar correr olhar os corpos
o próprio e os alheios

na frescura do sol ou no calor da
casa, esse um tempo feliz
e belo se algum tempo pode sê-lo.


Gastão Cruz é um poeta contido, labora a emoção de modo oblíquo, calibrando a sua inclinação reflexiva com a omnipresença do corpo e de uma sensualidade em parte herdada das paisagens da sua infância algarvia. O seu último livro ("A moeda do tempo", 2006) contém textos que me parecem particularmente conseguidos, como "A forma do amor", "Saturno", "Coisas contemporâneas", "Rua da marinha" ou "Linha sobre a Ásia".

No caso do poema aqui partilhado, o autor relembra a idade de todos os porquês. Mas como já não está nessa idade, ainda que nela permaneça à distância da memória, é forçoso que a veja como a idade dos ques. Afinal, a sua vida adulta terá vagueado pelo espectro completo da experiência humana (que se pode decompor em momentos causais, comparativos, integrantes, etc.), mas só agora o trabalho de análise (dos poemas, da vida) une presente e passado numa noção de prazer. O que antes era interrogação adquiriu serenidade.

O rio flui. Mas o nosso devir existencial não é liquído, antes se fragmenta por instantes. Perseguir o sentido da vida confunde-se por isso com a técnica do enjambement, com a tentativa de unificar num sentido-fleuve aquilo que talvez nem sentido tenha.

Assim, o poeta termina celebrando a beleza da infância e da juventude. Falar nadar correr olhar os corpos: esse tempo era belo (se algum tempo pode sê-lo) porque tudo isso cabia num verso único.

Não falavam a nossa fala

No duplo CD "Paraísos perdidos" de Jordi Savall (com música do tempo de Cristóvão Colombo), a uma dada altura é recitado um poema azteca em língua nauhatl. O poema é interessante, mas o que mais me impressionou foi a estranha sonoridade dessa língua, praticamente reduzida a um crepitar de consoantes. Como se fosse uma fala pertencente a um naipe de percussão (e que estranhas as línguas actuais, todas tão violeta, oboé d'amor, trompa).

Transcrevo aqui o texto e faço uma tradução aproximativa a partir do inglês.

Cuix oc nelli nemohua oa in tlalticpac Yhui ohuaye?
An nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.
Tel ca chalchihuitl no xamani
no teocuitlatl in tlapani
no quetzalli poztequi Ya hui ohuaya
an nochipa tlalticpac: zan achica ye nican.


Vivemos, de verdade, nesta Terra?
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.
Todas as coisas, mesmo o jade, quebram,
todas as coisas, mesmo o ouro, rompem,
mesmo a plumagem do quetzal se desvanece;
Não para sempre nesta Terra: apenas um pouco aqui.

Casting 9



Nick Nolte: um excelente actor de decomposição.

sábado, março 03, 2007

Galeria 21


Cesare Pavese

Partilha 10

“quando piove sul mare, ogni goccia è perduta”
Cesare Pavese


noite
um rebanho de formigas brancas labora
deixa palavras de limão sobre o papel
(dos poemas amados chove cinza)
de repente
o vaivém das imagens contamina a pele
um doce vento começa a folhear
(a desfolhar) ondulações
e enquanto o cavalinho da madrugada
fino e delicado como o arroz
(ou outro alfabeto vegetal)
acusa a acidez do mundo
um sol de cigarras em fogo esbanja Beleza
o mar rasga e esvai-se em silêncio
(em cirílico)


(este poema faz parte do meu livro inédito: "dar o dizer por Não dizer")

sexta-feira, março 02, 2007

O coleccionador 4

Num cinema de rigor obsessivo como o de Manoel de Oliveira, a mínima opção (ou desvio) formal implica sempre uma desmesura de expressividade. A própria parcimónia das evidências de encenação (as formas estão dilatadas no tempo) intensifica qualquer excepção à regra que o filme a si mesmo se impõe.

Por exemplo, numa cena de "Amor de perdição" em que Mariana leva uma carta a Teresa já enclausurada num convento, a princípio vemos a jovem camponesa através de um gradeamento. No entanto, quando Teresa por fim aparece na imagem, a câmara muda subitamente de posição, ficando então as grades a marcar o centro do plano, desse modo separando as duas mulheres no espaço. O movimento da câmara não foi pensado por meras razões pragmáticas ou decorativas. O que acontece é que o sentido da cena muda por completo. O cárcere deixa de ser visto como cárcere (o confronto especular revela às duas que, neste ponto da tragédia, elas já se encontram libertas pelo amor) e torna-se fronteira (Teresa e Mariana são rivais).

Na mesma obra, quando Simão parte de barco para o degredo, a sensação de balanço provocada pelas águas é filmada de tal maneira que temos consciência de que é a câmara, e não o barco, que se está a mover. As partidas, o ostinato da dor: tudo isso é assunto do espírito. Afinal, não é o mundo que roda em torno do homem, mas a alma que se entorna na roda do mundo.

Vontade de rir

1. E não é que o exterminador implacável descobre que o maior alien que o planeta já teve afinal morreu de morte não ressuscitada, e assim se põe a jeito de encenar um dos mais terríveis naufrágios de que há memória?
Para um ateu praticante como eu, a figura de Cristo será sempre relevante por questões que o sobrenatural desconhece. Mas isto de um comerciante de Hollywood querer ter uma palavra (a palavra) a dizer a propósito de religião, dá-me muita vontade de rir. Muita.

2. De qualquer modo, o assunto de Deus tem muito que se lhe diga. Ele há quem se converta por causa da música de Bach, por causa da profusão de estrelas do universo, da complexidade do corpo humano, da irredutível beleza de uma florinha, da generosidade. Eu tento ser mais modesto.
Por exemplo, que uma pessoa como Dick Cheney tenha uma filha que é lésbica assumida, é um facto de tal modo irónico que me faz intuir uma espécie de sentido secreto na vida. Chego a sentir uma vaga esperança. Afinal, um mundo com este sentido de humor tem de ter autor.

quinta-feira, março 01, 2007

Um problema de contexto

Capítulo XXXII, Primeira Parte ("Dom Quixote de la Mancha" de Cervantes)

O cura exalta um cavaleiro com carne e osso de existência, que detinha com um dedo uma roda de moinho a meio da sua fúria. Clara hipérbole (mesmo que tal fosse verdade, seria a vida a parecer irreal de tão excepcional).

Mas logo o estalajadeiro sobrepõe um cavaleiro desses dos livros, capaz de partir cinco gigantes pela cintura, de um só revés. Mas nesses livros, em todos, tudo é possível: a verosimilhança é a única excepção à regra da literatura.

Conclusão: na fantasia não existe a hipérbole.

Saving private & public Ryan

A História faz-se de factos e de pensamento sobre factos. Mas a passagem dos primeiros para os segundos exige idade, classe social, e feitio.

Assim, alguns seres apenas mudam quando confrontados com os FACTOS.

Que o Ryan realizador não enverede pelo cinema comercial (claro), nem pelo cinema dito independente (menos claro).

Que o Ryan actor, que pode ter o cinema a seus pés, não perca o seu pé singular (sobretudo nunca se encurrale entre o ser galã e o parecer autista).

(filme "Half Nelson" de Ryan Fleck)