Toda a gente diz que os rios podem ser imaginados como espelhos. Toda a gente diz também que os Lugares Comuns albergam todos os seus cidadãos sob a bandeira da evidência. Mas do que ninguém se lembra, é do profundo drama que emoldura a condição especular do rio. Pois se, de Heraclito a Luiza Neto Jorge, ninguém duas vezes passa o mesmo rio, os rios correm e recorrem, afastam-se como a vida e o tempo, o certo é que os reflexos que neles se fixam não viajam com o seu espelho líquido, paradoxo doloroso em que a imagem se mantém apesar do nomadismo do seu suporte. Imagine-se um poema em que as palavras mudassem a cada segundo, as construções sintácticas variassem por cada capricho do acaso, os achados do poeta desaparecessem de uma forma tão célere quanto a da sua revelação, mas onde as imagens que ecoam o mundo fossem invariavelmente as mesmas... É isto um rio.
Era, portanto, uma vez um rio.
(Infelizmente, o título do primeiro conto foi grafado de maneira irritantemente incorrecta. O texto chama-se "As magnólias", mas o que por lá aparece como título é... "As agnólias" (???). Espero que o disparate não desincentive o potencial leitor)
1 comentário:
.... é esse o drama dos seres líquidos: cumprir-se no eterno novo, permanecendo;
são os rios sábios nessa dupla possibilidadede vida: entregando-se e indo assim, inteiros, são.
(o rio de mim começou num 8 de julho)
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