Mas decidira combinar esse procedimento com a sua antiga obsessão pela figura do remake. Assim sendo, o seu projecto consistia na reconstituição de algumas cenas pertencentes a filmes-chaves da história do cinema, reconstituição essa que seria interrompida pelo acima referido movimento de câmara, dando lugar ao ponto de vista aéreo sobre o plateau em actividade em torno de cada uma das sequências. O discurso sobre cada filme (e sobre o cinema em geral) seria transmitido através da encenação desses plateaus, e não através das refilmagens propriamente ditas.
Aplicou o estratagema a diversas obras: "L'Atalante" de Jean Vigo, "You only live once" de Fritz Lang, "La maman et la putain" de Jean Eustache, "Medea" de P. P. Pasolini, "Silvestre" de João César Monteiro. E também refez uma cena de "A lenda da Fortaleza de Surame" de Sergei Paradjanov.
Mas quando chegou o momento de evocar este último filme, deu-se um episódio estranho (um episódio fantástico, para dizer a verdade). A câmara embrenhou-se no seu já rotineiro voo, mas em torno do cenário não apareceu nenhum plateau: o enquadramento continuou a registar as referências visuais do filme de Paradjanov. Conforme o campo de visão da câmara ia aumentando (devido à distância), mais o filme se distendia, como uma realidade alternativa ocupando o lugar de toda a realidade. Como se "A lenda da fortaleza de Surame" constituísse um cinema tão íntegro e intenso que não pudesse ser desvelado por nenhum processo.
A verdade é que todos os filmes se fazem da tristeza que a realidade lhes impôs. No entanto, talvez porque Paradjanov tenha sofrido um injusto e escandaloso encarceramento durante vários anos, neste seu filme a realidade aparece em estado de júbilo imaculado, absoluto ("Ashik Kerib", rodado a seguir, já é tão livre que se torna estranho; o próprio autor declarou que queria morrer após a sua concretização). Daí que o sacrifício contado na lenda (o homem que tem de ser emparedado para que a fortaleza não caia) não seja o resultado de uma vingança (a vidente que exigiu o martírio era uma antiga amante despeitada do emparedado), mas de um equilíbrio do destino (tudo aconteceu assim, porque o universo o exigia).
Só em júbilo pode a realidade não ser ilusão.
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