quinta-feira, janeiro 11, 2007

Tanto marxismo...

Diz a História do Cinema que muitos dos melhores achados com que os grandes filmes foram feitos, se deveram às reacções dos seus fazedores às limitações das condições de produção. O exemplo clássico é "A bout de souffle", no qual Godard decidiu suprimir todos os contracampos devido ao pouco dinheiro com que a obra se fez: e assim se lançou uma proposta (ainda hoje) radical.

Tanta gente segue esta teoria, que ela deve estar certa! Ainda por cima, isto costuma servir para legitimar as intervenções dos produtores hollywoodianos no trabalho dos seus realizadores (diz-se, por exemplo, que a primeira parte da obra de Losey é melhor do que o seu período de liberdade autoral, etc.).

Permitam-me, contudo, ser ovelha ranhosa. É claro que há exemplos famosos de perda de controlo dos resultados de um filme por parte de realizadores sem rédea (Cimino, Coppola, etc.). Mas devido à minha ingénua fé nesta espécie a que pertenço, a minha opinião é que ou tais realizadores foram mais megalómanos do que criadores (ou seja, deu-lhes um ataque de mania das grandezas, o que constitui um delito ético), ou não eram tão bons cineastas quanto pensavam.

Defendo que é na total liberdade do gesto criador que podemos avaliar a verdadeira grandeza desse gesto (onde também se inclui o sentido de eficácia que qualquer artista deve possuir). Não foi essa a ideia que vingou: o cinema europeu é a terra devastada do que foi no passado. Mas contra a universal celebração da indústria, eu prefiro celebrar a minha cinefilia. E escolho, como paradigma, o primeiro filme de Orson Welles. "Citizen Kane" foi feito como o seu autor queria, da primeira à última imagem. E foi feito com as condições necessárias (não excessivas) para que resultasse. Welles não se espalhou. Pelo contrário: "Citizen Kane" é um dos filmes mais complexos, indómitos, e inesgotáveis que a História de Cinema já conheceu.

Pois o criador cria, acima de tudo, a sua própria responsabilidade.

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