segunda-feira, janeiro 29, 2007

O resto do corpo

Independentemente das circunstâncias concretas da sua vida, o poeta sempre abre uma fonte de exultação para o futuro. Mesmo a poesia mais trágica (de Mário de Sá-Carneiro a Sylvia Plath) contém, na intensidade com que traduz o mundo, os germes de uma alegria profunda que será fruída por todos aqueles que vivem o real em estado-de-palavra. Ou seja, aqueles que, de pés firmes na terra, entregam o resto do corpo ao tempo, ao desejo, à dúvida, à insatisfação.

No entanto, o poeta também abre um manancial de sofrimento. Aquela alegria é demasiado grande, demasiado inteira, para não provocar uma dor profunda quando embate na dureza que sempre caracterizou a vida humana, e que sempre a caracterizará. Aquele que ama a poesia tem de confrontar-se com a violência do mundo. E esse sofrimento é necessário para que possamos entender a nossa relação connosco e com os outros fora dos âmbitos redutores da utopia ou da resignação, da ingenuidade ou do cinismo. Aquele que ama a poesia não se torna culto, mas perde, de facto, ignorância. Compreende esta coisa absurda de ser humano num universo que (para o melhor, e para o pior) não foi feito para tal. Sabe as guerras que têm de ser impedidas, e as que têm de ser assumidas. Distingue a Aventura.

E sofre por causa da alegria. Mas também se alegra mais, porque sofre.

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