segunda-feira, janeiro 15, 2007

O INACTUAL 9

"Hiroshima mon amour" - Alain Resnais (1959)

Poderia este filme ter surgido sem as experiências prévias de "Viaggio in Italia" (uma ficção amorosa transtornada por uma pulsão documental) e do cinema de Ingmar Bergman (o mexer e remexer da ferida de uma relação)? Dúvidas que a História se encarrega de carregar, sem resposta firme. De qualquer modo, onde Bergman tende para a análise psicológica, Resnais assume-se essencialmente metafísico.

Conduzida pela música das vozes, a obra põe em cena um par adúltero, ou seja, um par de personagens transtornadas pela culpa: ele não estava em Hiroxima aquando do desastre nuclear, ela esteve apaixonada por um soldado alemão durante II Guerra Mundial. O amor surge, então, afectado pelo PÓ que sobre ele cai (como o demonstram as famosas imagens iniciais): pó de Hiroxima e pó de Nevers.

Em torno da ficção principal (apenas os corpos e as conversas dos amantes), surge então uma estética da poeira, da erosão. A reconstituição da catástrofe atómica é ensombrada moralmente: talvez não possamos ver nada em Hiroxima na medida em que não estivemos presentes no momento trágico, ou tão-somente porque não é possível ver tamanho sofrimento. O cinema documental é descarnado pela sua própria inquietação, pela iminência da auto-negação. Mas também o segmento de Nevers nos é dado sem a banda sonora (como se todo o Som fosse sempre presente). E a própria militância política aparece fragmentada por diversos cartazes (filmados num contra-picado amargo).

Para além desta peneira espiritual, Resnais desenvolve uma estratégia da cicatriz: ora a dor regressa (a mulher quase reenlouquece ao recordar o passado), ora a paz se impõe (a mulher verbaliza o seu esquecimento). Daí a importância dos travellings, que aqui não transmitem beleza mas a reconciliação com o Tempo (o que neles releva é o ritmo, sereno e lento, com que domesticam as feras do sofrimento). A imagem abstracta do genérico (uma cicatriz) assemelha-se ao mapa da cidade.

A montagem não só promove o diálogo entre os vários filmes (mais do que pontos de vista ou trechos de ficção, são verdadeiros filmes qualitativamente estranhos entre si), mas multiplica esses desejos de reconciliação.Tarefa parcialmente destinada ao fracasso: as imagens da obra são tão fortes que não as conseguimos esquecer.

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