quinta-feira, janeiro 04, 2007

O encenador de bancada 2

Lucinda, a amada de Cardénio, é uma personagem misteriosa. Quando se despede do seu namorado, desata a chorar convulsivamente (porque já sabe que D. Fernando congemina pedir a sua mão em casamento, traindo a amizade de Cardénio, que é partido menos vistoso para a sua família). Passados alguns dias, no instante anterior à realização da cerimónia que fará de Fernando seu marido, ela promete a Cardénio que irá negar o consentimento matrimonial, e porventura acabar mesmo com a sua própria vida. Di-lo com lágrimas de mártir e de heroína. No entanto, no momento em que tudo se poderia resolver, ela diz que Sim, aceita o pacto matrimonial: cobarde, demasiado lúcida, ou completamente doida.

Mas por que razão chora ela? O que traduzem essas lágrimas onde não se resolve a contradição entre o seu discurso e a sua acção?

A actriz que interprete este papel não pode ter demasiada técnica (não pode ser alguém como Beatriz Batarda, por exemplo). Contentar-me-ia com lágrimas postas nos olhos a conta-gotas. É preciso que uma genuína incapacidade de representar dor verdadeira (e forte) crie mistério sob o choro.

Como se as lágrimas fossem demasiado quixotescas para a sanchice do rosto.

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