sábado, janeiro 27, 2007

No escrínio 14

Fragmento de um Romance da Filha de Ayres Corrêa, de Vitorino Nemésio:

Vem Janeiro, o Santo Amaro,
E, como em fome, a pão raro,
Batem à sua janela
Mais mãos do que pés de vento.


Este pequeno excerto pertence ao conjunto de poemas que Nemésio escreveu, no fim da vida, para celebrar a paixão nele desencadeada por Dona Margarida Vitória, Marquesa de Jácome Correia. Os textos foram publicados postumamente, e apesar de o poeta não ter levado o perfeccionismo do seu acabamento a todo o conjunto lírico, o certo é que este capricho de velho se apresenta ao leitor como o fabuloso testamento do ocaso sentimental de um escritor inquieto.

Neste poemas algo secretos, cifrados pelas contingências quotidianas da vida de cada um dos amantes (mesmo assim, descobrimos que a Marquesa tinha sido suficientemente promíscua para catalisar o ciúme de Nemésio, sabemos que estava falida, etc.), o autor encontra-se no ponto óptimo de fazer poesia com tudo. Assim, este Romance gira à volta do talento de engomadeira de Dona Margarida (não sei em que circunstâncias ela o praticava), mas parte desse prosaico encanto (para quem encanto o ache) para construir o seu desvio lírico. Desvio com uma tonalidade inimitável, para o qual concorrem a ironia, a biografia sublimada, a mesquinhez de alguns sentimentos, a atribuição de papeis dramáticos a todos os objectos que testemunham a relação, e o descaramento assolapado de uma paixão fora de tempo.

No pequeno fragmento que fui buscar ao meu escrínio, a grande concorrência das gentes do povo na aquisição dos serviços de engomadeira da Marquesa (se é que ela prestava tais serviços), sofre uma metamorfose insolente: a amante assume o papel de Santa, oferecendo a sua roupa impecavelmente engomada como quem pratica a caridade de saciar fomes terríveis com a dádiva do pão. A roupa é promovida a alimento essencial (porque cobre o corpo, o pão-nosso-de-cada-dia dos amantes), e o povo todo é impiedosamente empobrecido, para que a marquesa, por momentos baudelairiana, lhe possa dispensar uma polémica generosidade do alto do seu pedestal. Afinal, se é Marquesa sem tusto, alguma coisa nela deve ser aristocrática.

Mas o elemento mais conseguido do fragmento é o facto de que, à janela da casa da marquesa, batem mais mãos do que pés de vento. Há várias operações que aqui são efectuadas. Pé de vento, enquanto metáfora morta, evocará certamente a vida sentimental conturbada da senhora, vida essa que seria mítica tanto para o poeta como para o jet-set da altura. No degrau inferior da metáfora (pois esta expressão passou por vários mundos no seu Além), o pé de vento é a simples ventania que eventualmente assolaria a casa da Marquesa (e não posso deixar de ver aqui um pé de dança a reunir o movimento do vento e o vento fútil da vida mundana).

Mas o poeta fala em mãos de vento. É que esta mulher é demasiado amada para ser cantada ao nível do pé. É a mão (de cada pedinte do pão raro) que aqui ganha protagonismo: no jogo erótico, o pé pertence ao fetichismo, mas a mão é senhora da carícia. E não se pedem mãos em casamento? Nemésio dá à sua marquesinha (a cadela pura) o maior presente que um poeta pode dar a quem ama: inventa para ela uma nova metáfora, cria-lhe um um lugar comum na linguagem.

Dona Margarida Vitória: que mão-de-vento à sua passagem (a ferro)...

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