quinta-feira, janeiro 11, 2007

Língua de perguntador

No PÚBLICO do dia 10 do mês corrente, o jornalista J. Fidalgo exprimiu o seu mal-estar perante a possibilidade iminente dos restaurantes nova-iorquinos começarem a indicar, nos seus menus, o número de calorias com que cada prato ameaça a saúde dos preocupados comedores.

Perante as aceleradas mudanças do mundo, temos de ser por vezes conservadores: já percebemos que nem todas constituem verdadeiro progresso. De facto, esta moda que se anuncia não tem nada de boa nova. É simplesmente um ataque (paranóico) ao prazer. Não ao prazer de se empanturrar de modo patológico, mas à doçura de despreocupadamente conviver à mesa, de dar à língua em sabores novos e antigos, de tornar suportável a dieta a que a obesidade condena alguns de nós.

No entanto, daqui a muito poucos anos, já não saberemos como foi possível que, durante milénios, os alimentos não viessem acompanhados da informação numérica da quantidade de culpa com que são capazes de nos alimentar. O hábito não faz o monge, mas faz a evidência.

Poderíamos, então, fazer um exercício retrospectivo curioso: tentar desconstruir todos os hábitos alimentares, de modo a encontrarmos o nível de espanto que acompanhou cada mudança com que essa História específica se fez. Afinal, por que razão usamos um prato (e porquê redondo, de louça, individual)? Por que razão a mesa? A caça em tempo de pecuária? O doce? A haute cuisine? A sopa de unto? A sala de jantar? O McDonalds?

Chegaríamos talvez ao maior espanto de todos: o que justifica que, num menu, à frente da descrição da dádiva alimentar, venha assinalado o profundo drama de um preço? O que é que isso diz de nós enquanto Humanidade?

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